• A família "tradicional"Estamos assistindo em diversos países do mundo ao surgimento de um movimento que eu classificaria de neoconservador. Depois de tanto avanço social, programas de governo, panfletos associativos ou plataformas de campanha eleitoral, colocam o modelo da família tradicional como um resgate de valores morais, como se somente ela fosse depositária de honestidade, de integridade ou de decência. Essa é uma visão não somente reacionária, mas também etnocêntrica ou de quem pouco conhece o mundo. 

    Afinal, de que família tradicional se trata, considerando que esse modelo não é universal? Um pai, uma mãe, dois filhos, de preferência uma casal? Ou muitos filhos, como preconizam os menonitas, grupo étnico que crê piamente que quantos mais filhos se tem, mais se aproxima de Deus? Seriam, então, os milhares de grupos étnicos que apresentam sistemas sociais bem distantes desse modelo infames pecadores, indignos do amor divino? 

    Tomemos a noção de pai como exemplo. Sua universalidade seria incontestável, considerando que todo ser humano precisa de um genitor para fecundar e nascer. Porém, o papel social atribuído ao pai e a importância que o genitor adota no grupo varia muito de uma cultura para outra. 

    O etnólogo Evans-Prittchard que estudou os Nuer do Sudão, nos mostrou que nessa sociedade patrilinear, as meninas pertencem ao grupo de seu pai; porém, se uma delas for estéril, ela será considerada como um homem, podendo se casar legalmente com outra mulher e assumir todos os deveres masculinos, que inclui a escolha de um genitor para seus filhos que a chamarão de pai.

    Um outro exemplo edificante e liberador dado no artigo Être père, disent-ils ! de Nathalie Lamoureux, é o das minorias Na, na China, onde as mulheres não têm marido e seus filhos não têm pais designados. A família tradicional, ali, é matrilinear, composta de irmãs e irmãos que vivem juntos. Esses são gerados pelas visitas noturnas e furtivas dos homens, que não pretendem à paternidade de nenhuma das crianças nascidas no grupo.

    O antropólogo Henry Morgan, por sua vez, explica que para os Iroqueses da América do Norte, nenhum termo designa uma relação de parentesco, os membros do grupo chamam várias pessoas de pai, enquanto para os Yapeses da Micronésia, a relação pai/filho é uma relação de dependência fundada no patrimônio e não no nascimento.

    O caso dos Nayars do sudeste da Índia também revela uma particularidade no que diz respeito ao papel do pai. Essa sociedade matrilinear reconhece a paternidade formal do genitor, embora seus filhos não o chamem de pai. A mulher Nayars tem vários parceiros sexuais no decorrer de sua vida, e são seus tios, os irmãos de sua mãe, que assumem as obrigações materiais para com os descendentes de sua irmã. O estatuto de pai é atribuído ao parceiro escolhido pela mulher Nayars por um rito de passagem que o posiciona no alto da pirâmide de castas, e que não é necessariamente o genitor de seus filhos. 

    Concluo afirmando o quanto me parece arrogante considerar que a organização social ocidental seria a única moralmente válida, assim como o seria negar a evolução própria às sociedades que se reconhecem e se apresentam como modernas. Pois ser moderno não consiste simplesmente em usufruir dos benefícios do desenvolvimento tecnológico, a modernidade representa uma ruptura com a tradição escolástica e o estabelecimento de uma racionalidade autônoma. Isso implica na quebra de modelos sociais estabelecidos. Porém, como diria um amigo português, muitos querem ter sol na eira e chuva no nabal. Sejamos, então, coerentes com nossas escolhas e lutemos pelo que é realmente importante e cuja universalidade é inegociável: nosso pertencimento à espécie humana. 

     

    Muitas informações contidas nesse post foram tiradas do artigo Être père, disent-ils ! de Nathalie Lamoureux, publicado na revista Le Point de junho de 2018. 

     

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  • O mercado do tradutorNão, eu não me enganei no título, eu gostaria mesmo de falar aqui sobre o mercado do tradutor, e não sobre o mercado da tradução. Esse último, nós sabemos, encontra-se em plena expansão com um aumento anual próximo dos 6% e uma receita de 43 bilhões de dólares no ano de 2017, segundo o Index Translationum da UNESCO. 

    Apesar dos prognósticos pessimistas que anunciam o fim da nossa profissão como consequência do aparecimento de novas tecnologias ligadas à tradução, o tradutor permanece, ainda hoje, um ator central nesse dinâmico setor, mesmo não sendo seu principal decisor, pois é tributário dos mais diversos intermediários. Em compensação, ao observarmos a enorme quantidade de produtos e serviços que nos são oferecidos permanentemente, parece-me claro que nos tornamos também um objeto central, o alvo principal de um mercado que se constituiu dentro do mercado - certamente muito rentável pois este também se encontra em pleno crescimento.

    Admiro pessoas empreendedoras e compreendo sua necessidade de expandir seu mercado, aumentar sua receita, frutificar seu negócio, expandir-se. Recebo diariamente mensagens com propostas de serviços para tradutores como marketing, participação em seminários, venda ou atualização de ferramentas de assistência à tradução, cursos sobre temas diversos e variados, aulas de legendagem, de revisão, de aperfeiçoamento, coaching para encontrar novos clientes, e muitas outras sobre assuntos que eu às vezes até desconhecia. A criação de ferramentas informáticas, o estabelecimento de cursos, seminários, congressos, a confecção de material, tudo isso tem um custo, e esses suportes são muitas vezes necessários e deveriam supostamente enriquecer nosso trabalho, torná-lo mais simples, mais rápido, mais "rentável", mas... para quem? Pois quando nos colocamos do outro lado da relação comercial que esse negócio estabelece, a realidade é muito menos resplandescente. Não sei como são as coisas para a maioria dos meus colegas tradutores, e confesso não conhecer todos os macetes da profissão, mas tenho uma certa dificuldade em acompanhar tudo isso.

    E me permito levantar a delicada questão: quanto um tradutor deve ganhar para responder às necessidades de um mercado cada vez mais exigente? Está muito longe o tempo em que um tradutor precisava conhecer bem dois (ou diversos) idiomas para trabalhar. Hoje ele deve ser um perito em tecnologia informática muito além do conhecimento de ferramentas de assistência à tradução, um especialista em uma ou diversas áreas de competência, terminólogo, semiótico, analista... a lista é longa... pois obter a licença de uma ferramenta de assistência à tradução não basta, deve-se atualizá-la frequentemente e mesmo a atualização não é barata; as cotizações de sindicatos ou associações são anuais e o valor é alto; a mensalidade de um hospedeiro para os que se lançam na confecção de um blog também deve ser considerada; as inscrições em cursos e participações em congressos e seminários são exorbitantes, acrescentando-se a elas o custo com transporte e hospedagem na cidade onde tais eventos são realizados, sem nos esquecermos das taxas e dos impostos locais... será que um dia um tradutor consegue amortecer todo esse "investimento"? Investimos como empresários, mas somos remunerados como assalariados. 

    Adoro meu trabalho e me seguro como posso, mas não conheço nenhuma outra profissão na qual se deve pagar tanto... para trabalhar.

     

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  • O sexismo em seu paroxismoQuem nunca disse, em brigas apaixonadas com seus cônjugues, que homens e mulheres não falam a mesma língua, que jogue a primeira pedra. Não será o escritor John Gray, autor do livro "Os Homens são de marte e as mulheres de vênus", que me contradirá. Se esta frase foi um dia banal e insignificante, ela hoje se tornou polêmica, pois a diferença "natural" entre homens e mulheres é questionada pela teoria do gênero que considera que a distinção entre os dois sexos é uma construção social. Conceito em voga nos dias de hoje, que não é, contudo, nenhuma novidade, pois já em 1949 Simone de Beauvoir abordou esse tema em seu livro "O Segundo sexo" no qual afirma que "não se nasce mulher, torna-se". Se naquela época seu livro foi muito contestado, a teoria do gênero é hoje ensinada em algumas escolas em diversos países ocidentais.

    Mas eis que ontem, meu colega e amigo Omar me passou uma reportagem da BBC cujo tema me interessa, como ele faz sempre, que fala de uma sociedade onde o sexismo é assumido, revindicado sem complexo, e na qual os homens e as mulheres literalmente não falam a mesma língua: a distinção sexual nos Ubang do Nigéria se inscreve em sua própria língua pois, nesse grupo, os homens e as mulheres falam duas línguas diferentes. Que eu saiba, esse grupo étnico ancestral é o único a apresentar essa particularidade. 

    Os Ubang se dizem descendentes diretos de Adão e Eva, afirmando que essa distinção linguística obedece à vontade de Deus. Quais seriam, então, as implicações socioculturais dessa separação? Não sei se esse fenômeno foi objeto de estudos linguísticos, antropológicos ou de qualquer outra área. Desculpem-me por minha leviandade. Pelo que pude entender, os meninos e as meninas falam a mesma língua durante a infância, a língua da mãe, até completarem 10 anos, quando os meninos devem começar a falar a língua de seus pais. Ninguém lhes diz quando essa mudança deve ser feita, é justamente o sentimento de não estar falando mais a língua "certa" que revela sua maturidade. Essa última é atingida quando o menino domina a língua masculina, seu rito de passagem à idade adulta. Se sua linguagem não mudar até uma certa idade, ele é considerado "anormal" pelo grupo.

    As coisas se tornaram mais claras em meu esquema analítico, quando aprendi que as mulheres são proibidas de falar a língua dos homens. Assim, a comunicação para as mulheres dentro do grupo é restrita, pois sua iniciativa de comunicabilidade é reduzida às crianças, encontrando-se, assim, num papel passivo e, consequentemente, submissas ao benquerer masculino, que, por sua vez, podem comunicar livremente com qualquer membro do grupo.

    Mesmo que não esteja explícito na reportagem, parece-me claro que as mulheres Ubang não são espontaneamente ouvidas, compreendidas e não impõem voluntariamente sua voz. Se analisarmos friamente, não faz muito tempo, na história de longa duração, que as mulheres oriundas das sociedades ocidentais distinguem-se das mulheres Ubang nesse quesito. Recentemente o movimento #metoo veio denunciar as (numerosas) discriminações das quais as mulheres são vítimas, que vão muito além do assédio sexual, e conduzir uma ação contra as distinções no tratamento dado aos dois sexos - no qual a mulher é amplamente desfavorecida - nas sociedades ocidentais: diferenças salariais, dificuldade de acesso aos cargos de direção, baixa representatividade política, entre muitos outros. Enquanto o chefe Ubang afirma que, apesar dessa distinção linguística, esse grupo étnico se encontra entre os mais pacíficos do planeta, desse lado aqui do mundo o combate já começou.

    The Village where men and women speak different languages

     

     

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  • A tradução às avessasHilário. Esse seria o qualificativo que eu daria ao livro " Les Nègres du traducteur ", de Claude Bleton, caso me perguntassem, sugestão da minha colega e amiga Diana Sorgato. Não sei se na época de sua publicação em 2004 esse livro foi divulgado, comentado ou se teve qualquer repercussão pois eu não morava aqui esse ano. Mas posso afirmar que ele merece ser lido. Não somente por ser engraçado - eu literalmente chorei de rir como há muito tempo não fazia, mas sobretudo porque levanta questões centrais e polêmicas que dizem respeito à tradução literária e ao papel do tradutor. 

    O título do livro, que traduzido literalmente para o português seria "Os ghost-writers do tradutor", revela a louca incongruência da trama. O tradutor Claude Bleton conta a história de um colega megalômano ávido de reconhecimento e sucesso que decide impor suas traduções para que autores escrevam seus respectivos originais, gerando situações insólitas e muito engraçadas. Só não sei se seriam tão engraçadas para não tradutores. 

    O autor do livro tem uma inquestionável imaginação que transborda para muito além da trama principal, pois ela se derrama pelas pequenas histórias criadas e escritas por sua personagem principal, o tradutor megalômano, que se transformam em sucessos de venda. As primeiras perguntas que me vieram à mente são provavelmente irrelevantes, pois são pessoais e se referem ao autor do livro: até que ponto Claude Bleton reprimiu sua exuberante imaginação em seu trabalho de tradução durante sua longa e produtiva carreira - mais de cem livros traduzidos do espanhol para o francês? Essa repressão teria provocado frustração? Ou o desejo de uma inofensiva e divertida vingança materializado nesse livro? 

    Porém, o que mais intrigou a tradutora que sou foi não ter sabido (ou conseguido) distinguir a existência ou não de ironia no que diz respeito à margem de liberdade que um tradutor deve adotar diante do original na adaptação de um texto ao contexto de chegada. Ora, a personagem de Claude Bleton descobria "pouco a pouco o quanto a tradução era um ato de recriação" (tradução quase literal da frase). Nessa reelaboração do texto, o tradutor megalômano da trama modifica o nome das personagens do livro original,sua profissão, substitui o estilo indireto pelo direto introduzindo diálogos que não constavam no original, ao ponto de trocar a função da personagem principal de um livro sobre a tauromaquia que deixou de ser toureiro para "evitar ter problemas com a sociedade protetora dos animais" causando surpresa ao autor do livro nessa louca história. Para mim, parecia definitivamente cômico.

    Sei que esse tema é recorrente, que existem escolas que defendem opiniões divergentes e muitas vezes até contrárias sobre uma eventual "recriação" do texto original. Eu teria lido o livro convencida de que o autor estaria sendo irônico quanto à liberdade assumida por alguns tradutores, se eu não tivesse lido uma entrevista feita no período de lançamento do livro. Nela, Claude Bleton afirma que um tradutor deve "desconfiar do texto original", considerando-o uma prisão da qual se deve escapar "pois devemos criar um outro texto que não tem nada em comum com o texto original, não são as mesmas palavras, a mesma língua, nem o mesmo universo linguístico, cultural, econômico etc."

    Minha admiração por Claude Bleton, grande tradutor e talentoso autor de um livro tão inteligente e divertido, manteve-se intacta depois de eu ter lido essa entrevista. Mas não vou negar que não me reconheço nessa descrição do nosso trabalho. Embora meu questionamento se renove em cada nova tradução, embora eu possa perder horas para decidir sobre a adequação do uso de uma única palavra, no que diz respeito à relação estabelecida com o texto original, sou categórica: a minha será sempre de cumplicidade e respeito pelo autor. Na minha modesta opinião, a desconfiança sugere um aspecto defensivo, uma distância que seria contrária ao comportamento que eu, pessoalmente, costumo assumir ao abraçar uma obra da qual me aproprio durante e depois do término da tradução. 

    Referências: Les Nègres du traducteur, Claude Bleton, Éditions Métailié, Paris, 2004.

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  • O bom linguista Há alguns meses havia escrito sobre a vulnerável relação existente entre tradutores e corretores em um artigo que intitulei "Tradutores versus corretores". Apesar de tê-lo chamado assim, não penso hoje, e nunca pensei, que devesse haver qualquer conflito e competição entre tradutores e corretores que trabalham num projeto comum. O objetivo final deveria ser um só: entregar um trabalho bem feito. Mesmo porque, muitos de nós somos alternativamente tradutores e corretores. No artigo mencionado, comentei um fato ocorrido que me deixou destabilizada ao ter sido reprovada num teste que fiz para uma agência. Não me acho infalível, ao contrário, verifico constantemente palavras cujo significado me deixam dubitativa, procuro sinônimos mais sofisticados ou mais familiares de palavras que conheço bem para melhor adaptá-las ao contexto do texto de origem. Esse teste em questão não apresentava nenhuma dificuldade, era um pequeno parágrafo que falava da França, país onde moro há mais de vinte anos, e cujo idioma estudo há mais de 30. Para quem já traduziu textos complexos como os de Lévi-Strauss, Paul Veyne ou Pascal Picq, estava tranquila quanto ao resultado. Porém, não esperava que o(a) corretor(a) trocasse dezenas de palavras por sinônimos, alguns até com sentido menos adequado que aqueles que eu havia escolhido. 

    Talvez essa pessoa tivesse seguido à risca as orientações de gerentes de projeto que pedem para "trocar seis por meia dúzia para mostrar trabalho". Já ouvi essa frase, mas recusei-me a aplicá-la: corrijo erros e não escolhas. Essas últimas, pelo que me consta, são prerrogativas do tradutor. E não vou nunca, em minha sã consciência, procurar erros que não existem. Jamais conseguiria dormir sabendo que prejudiquei voluntariamente um colega competente. 

    Mas hoje venho colocar um fato contrário ao que expus em meu artigo: quando o tradutor é suscetível e tem dificuldade em aceitar determinadas correções. Colocam-se na defensiva e muitas vezes, talvez por orgulho, ficam zangados com o corretor mesmo quando a correção é justificada. Essa suscetibilidade de alguns colegas podem ser perigosas, pois podem gerar uma animosidade que poderia se manifestar numa correção "maliciosa" posteriormente e resultados falseados.

    Essas colocações me fizeram pensar no relacionamento que estabeleci com uma colega recentemente. Trabalhamos juntas para uma mesma agência há alguns anos. Geralmente eu corrijo suas ótimas traduções, mas uma vez invertemos nossos papeis. Essa agência permite que releiamos nosso trabalho corrigido. Achei a correção dela excelente e aprendi muito, inclusive coisas que aplico até hoje. Fiquei tão grata com o que aprendi que lhe enviei uma mensagem agradecendo pela correção que ela havia feito. Ela me respondeu com uma mensagem amigável, um tanto surpresa, dizendo que aquela era a primeira vez que alguém lhe agradecia por uma correção. 

    Numa profissão tão "solta" como a nossa, em que nossa reputação e o consequente volume de trabalho muitas vezes depende de apreciações de terceiros dos quais nada sabemos, pergunto-me como medir a competência de um profissional sem conhecer o caráter de quem o julga? Essa questão me parece ser central para o trabalho dos gerentes de projeto que evidentemente não dominam todas as mais de 3.000 línguas faladas no mundo, e não têm outra escolha senão confiar em seus parceiros e prestadores de serviço. A honestidade se impõe, assim, como um critério sine qua non na configuração de "um bom linguista". O mais difícil é encontrar um meio de identificá-la. 

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