• Qual é a cor do tradutor?A profissão de tradutor apresenta algumas desvantagens bem conhecidas como o isolamento social, uma competitividade crescente e uma certa volatilidade nas relações profissionais. Até agora, sempre disse a mim mesma que essas desvantagens eram compensadas por uma grande vantagem: nossa aparência física não importa. Nosso orçamento para roupas de trabalho é zero, maquiagens e cabelereiros tornaram-se totalmente supérfluos, enfim, não estamos sujeitos à ditadura do "look" como noutras profissões. Melhor ainda, as crises existenciais ligadas à idade devido a um universo profissional no qual uma pessoa de cinquenta anos é substituída por três novatos não nos afetam da mesma forma, pelo contrário, é uma profissão onde se busca experiência. Mas será que isso está se tornando história antiga?

    Há algumas semanas publiquei um post chamado Eu, branca denunciando certas formas sutis de racismo contra os negros no qual eu - ingenuamente, candidamente, estupidamente - defendia uma sociedade mais justa e igualitária. Meu anti-racismo diz respeito a todas as formas de racismo e discriminação. E aquelas que estão atingindo nossa profissão me parecem igualmente incongruentes.

    Dois artigos do jornal Le Monde publicados há poucos dias contam como a tradutora holandesa Marieke Lucas Rijneveld desistiu de traduzir o livro The Hill We Climb, de Amanda Gorman, uma jovem poetisa americana, por ter sofrido muita pressão devido ao fato de ser ... branca. Mas ela não foi a única, um caso semelhante ocorreu na Espanha, onde o tradutor Victor Obiols foi excluído deste mesmo projeto pelos mesmos motivos. O argumento levantado consistia em dizer que, como brancos, eles não podiam se colocar no lugar de uma mulher negra.

    A problemática desta escolha de um tradutor em um catálogo em preto e branco situa-se além do racismo primário: ela questiona a própria essência do trabalho do tradutor e também a do escritor. Será então que vão começar a questionar a personagem de Madame Bovary porque Flaubert era um homem e não conseguia entender os sentimentos de uma mulher? É o próprio Victor Obiols quem melhor nos fala sobre isso: "Se eu não posso traduzir um poetisa porque ela é uma mulher, jovem, negra, americana do século XX, então também não posso traduzir Homero, porque não sou um grego do século VII aC ou não poderia ter traduzido Shakespeare, porque não sou um inglês do século XV ”.

    Esse estranho comportamento ultrapassa o escopo de nossa profissão, todo mundo sabe disso. Mas alguns fatos parecem mais aberrantes do que outros. De acordo com matéria publicada no L'Obs retransmitida pelo Le Figaro e confirmada pela própria autora esta semana na Europa 1, a presidente da União Nacional dos Estudantes da França, Mélanie Luce, organiza reuniões de trabalho às quais é vetada a participação de brancos. Atitude inadmissível para um sindicato que visa "defender os interesses materiais e morais dos estudantes através de missões de informação, defesa e organização de solidariedade [...] no combate à discriminação".

    A missão Perseverance pousou recentemente no planeta Marte. Porém, fico me perguntando se existe vida inteligente no planeta Terra porque, definitivamente, o ser humano não sabe aprender nenhuma lição das tragédias advindas em nossa história.

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  • Loucuras maternas de uma órfãPerder nossos pais está na ordem natural das coisas, faz parte do ciclo da vida. Mas não na infância nem na adolescência. Somente os que viveram sem o amor incondicional de uma mãe podem sequer imaginar o que isso representa. Aquele espaço vazio está ali permanentemente nos lembrando do carinho que não recebemos, do acalanto que não tivemos, das vezes em que precisamos de colo e não encontramos onde encostar nossos ombros cansados do peso de uma vida que começou cruel. Uma vida vivida com o fardo da perda.

    As sociedades não deviam ser divididas em categorias sociais, profissionais ou raciais, mas entre pessoas que cresceram com ou sem mãe. Às pessoas que cresceram sem mãe seria dado o direito de só terem professores gentis, chefes simpáticos, amigos sinceros. Medidas que compensassem um pouco esse desequilíbrio. Defendo com unhas e dentes os direitos dos deficientes físicos, mas reivindico aqui o direito dos deficientes emocionais.

    Passados mais de quarenta anos daquele dia desalmado, percebo hoje, enfim serena, que vivi uma vida by defaut, uma vida alternativa, defeituosa. Vivi uma vida querendo outra. Não uma vida com mais dinheiro, mais bonita ou mais inteligente, mas uma vida com mãe. 

    Pude medir o tamanho do estrago quando me tornei mãe. Sempre tomei muito cuidado para que minhas carências não transbordassem no meu filho, embora fosse inevitável que derramasse um pouquinho. Acho até que me saí bem, mas é na minha própria loucura que o estrago se manifesta: ela surge na inevitabilidade de pensar constante e cansativamente na dor que meu filho sentirá quando eu não estiver mais aqui. Seria eu a única a pensar assim? Será que tem cura, doutor? Pois apesar de eu brigar comigo mesma para tirar esses nefastos pensamentos da minha cabeça, eles voltam como bumerangue. 

    Porque esse dia fatalmente virá. 

    Quando o cheiro de pipoca na fila do cinema o lembrará das tardes chuvosas em que assistíamos a Fast and Furious agarradinhos. Talvez ele se lembre das manhãs preguiçosas em que eu ia acordá-lo chamando-o de "meu bebê" e que ele me expulsava, irritado, afirmando sua autonomia. Talvez se lembre das fantasias malfeitas que eu fazia para as festas da escola, rindo da minha própria incompetência manual. Ou talvez não se lembre de nada disso. Mas tenho a absoluta certeza de que o amor profundo com o qual o criei deixará marcas indeléveis, pois foi esse mesmo amor que recebi durante parcos quatorze anos que me preencheu, mantendo-me em pé nesse mundo cão.

     

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  • Eu, brancaNunca contei o ocorrido a minha amiga e nem ousei falar disso por falta de provas, mas pude confirmar minhas suspeitas recentemente. Ela vai descobrir se ler esse post.

    Há alguns anos inaugurou um café na minha cidade do tipo que eu gosto, com sofás e capuccinos, cosy e acolhedor. Comecei a frequentá-lo e sempre fui recebida com um largo sorriso. Num dos meus aniversários, minha amiga me sugeriu tomarmos um café-da-manhã juntas, e sugeri esse lugar. Cheguei um pouco antes, fui recebida como de hábito, sentei-me e esperei por ela. Ela chegou, sentou-se, mas quando vieram nos atender, a acolhida foi glacial, extremamente desagradável. Senti-me desconfortável e mal consegui engolir meu café da manhã, mas minha amiga nem percebeu. Olhei para as outras mesas e o atendimento estava sorridente como sempre. Perguntei-me porque estávamos sendo tratadas daquele jeito, tentando encontrar o detalhe que fazia a diferença na nossa mesa. O único diferencial que demorei a admitir era a cor da pele da minha amiga. 

    Minhas suspeitas foram confirmadas recentemente ao ler um artigo no Trip Advisor sobre esse café. No meio de muitos comentários elogiosos, um foi extremamente crítico quanto à acolhida, contada nos detalhes, e concluindo que havia ficado claro, para ela, que foi recebida diferentemente dos outros por ser negra. 

    Se eu demorei a aceitar que aquele atendimento execrável devia-se ao fato de minha amiga ser negra, não foi pela ingenuidade de achar que o racismo não existe, muito pelo contrário. Afinal, nasci no Rio de Janeiro, fui testemunha do racismo escancarado, violento e cruel durante todos os vinte e cinco anos vividos ali, mas queria ter provas para não acusar injustamente alguém de um comportamento tão vil. Ao mesmo tempo, observar tão abertamente esse racismo sutil e pernicioso me fez cogitar. Principalmente pelo fato de a minha amiga sequer ter percebido aquela frieza e rispidez no modo como fomos tratadas: não fez nenhum comentário e achou tudo normal. Eu disse para mim mesma que isso se deve provavelmente ao fato de tal tratamento não ser tão incomum para ela, que se manteve meiga e sorridente o tempo todo. Pensei também, com muita tristeza, que além da violência aberta e desumana da qual os negros têm sido vítimas há séculos, além da discriminação no trabalho, policial e da estigmatização social, eles vivem num mundo hostil. Eu, branca, não volto em lugares onde me tratam assim. Mas que escolha eles teriam? Seria esse o tratamento ao qual são confrontados? Nunca saberei exatamente.

    A socióloga americana Robin Diangelo lançou um livro intitulado "Fragilidade branca" no qual aborda a dificuldade que os brancos têm de se apresentarem através de uma descrição racializada, como brancos. Segundo ela, essa dificuldade vem de longe, ela seria o fruto do modo como a história é narrada em nossas sociedades ocidentais : "a história branca é a que serve de norma à História. Assim, o fato de precisarmos especificar que estamos falando da história dos negros ou das mulheres, sugere que eles se situam fora da norma". Em outras palavras, a identidade branca consiste em se considerar com um indivíduo isento de raça. A "fragilidade branca" não seria, então, uma fraqueza em si, mas, ao contrário, um meio poderoso de controle racial e de proteção das vantagens dos brancos. A recusa de se pensar como brancos seria, segunda essa autora, um meio de perpetuar uma sociedade que mantém uma desigualdade de fato, pois a branquitude seria associada à neutralidade ou à universalidade.

    Essa autora não sugere que os bracos, individualmente, não encontrem obstáculos ou combates contra os quais precisa lutar, ela afirma simplesmente que o racismo não é um deles. E conclui dizendo que o primeiro passo para uma mudança na luta antirracista seria que os brancos se reconhecessem como brancos, integrantes de um sistema que funciona racialmente, e admitissem os privilégios associados a essa característica. Foi o que pretendi ao redigir esse post

    Livro: White Fragility: Why it's so hard for white people to talk about racism. Robin DiAngelo, Paperback, 2018. 

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  • Os invisíveis essenciaisQuando eu era ainda uma criança, a ingenuidade do meu pensamento acreditava que lixeiros e profissionais que exercem trabalhos similares, difíceis ou ingratos, tinham um excelente salário. Eu estava convencida de que a sociedade, em sua justiça altiva, pagava bem àqueles que exerciam funções e profissões que poucas pessoas gostariam de exercer, como uma forma de compensação e reconhecimento. Qual não foi minha surpresa ao descobrir a dura realidade das péssimas condições de trabalho dessas profissões tão essenciais para o bom funcionamento de qualquer sociedade moderna, principalmente no Brasil, país onde nasci e vivi meus primeiros vinte e cinco anos de vida. 

    Foi um verdadeiro choque! Não me lembro a idade que tinha quando comecei a perceber o quanto tais profissões eram não somente mal pagas, mas extremamente social e simbolicamente desvalorizadas quando deviam receber todo nosso respeito e gratidão. Muitos passam sem sequer ver os que Ken Loach chama de "invisíveis" em seu pungente filme "Bread and Roses" que mostra a forma como tais profissionais são tratados nos Estados Unidos. Essa foi provavelmente minha primeira incompreensão e revolta social, que se acumulará a muitas outras no decorrer da minha vida. 

    Acho que até pouco tempo atrás eu ainda tinha uma crença profunda na humanidade, genuinamente acreditando que o objetivo de todos seria caminharmos para sociedades mais igualitárias, solidárias, menos injustas. Ledo engano! O mundo está ficando ainda mais incompreensível para mim, onde uma Kim Kardashian é um modelo de sucesso e se enriquece cada dia mais, enquanto aqueles que exercem profissões vitais e imprescindíveis lutam para manter um emprego cujo salário mal paga suas contas.

    Nesse ano de 2020, estamos vivenciando uma crise sem precedentes na idade moderna provocada pela pandemia do Covid-19. Num curto artigo sobre as lições a serem tiradas desse confinamento em escala mundial, a socióloga franco-israelense Eva Illouz afirma que nós devemos nossa sobrevivência aos homens e mulheres que trabalham nos supermercados, hospitais, limpando as ruas, aos entregadores e à todos aqueles que exercem profissões essenciais, e que esse evento mostrou "a vacuidade de celebridades e financistas enquanto os que ocupam atividades habitualmente invisíveis e desvalorizadas revelaram-se ser nossos pilares". Ela termina dizendo que nosso mundo "normal" funciona com uma escala de valores falsa e invertida. 

    Foi preciso, então, uma catástrofe sanitária mundial para que meu pensamento infantil encontrasse um respaldo concreto. Encontrei, enfim, alguém que pensa como a menina que eu era. A diferença entre mim e Eva Illouz reside no fato de que eu, definitivamente, não acredito que a humanidade tirará qualquer lição daquilo que, como diria o grande Caetano Veloso, "nesse momento se revelará aos povos e surpreenderá a todos, não por ser exótico, mas pelo fato de poder ter sempre estado oculto quando terá sido o óbvio". 

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  • As pequenas mortes da vidaEmbora a palavra luto em português também defina um sofrimento ou desgosto, ela é comumente associada à perda física de alguém. Aqui na França, seu equivalente em francês, deuil, tem uma utilização mais ampla, esse termo é frequentemente usado para se referir ao que deve ser deixado para trás. Na minha compreensão da expressão "faire le deuil", revela-se a sábia ideia de aceitar o que não pode ser mudado.

    Nossas vidas estão repletas de momentos assim, que foram maravilhosos e nos quais estávamos (ou pensávamos ser) felizes, mas que por razões independentes da nossa vontade não existem mais. Não temos outra escolha senão aceitar que permanecerão no passado e seguir em frente. Pois apesar dessa ruptura não ser dramática ou tão dolorosa quanto à irremediável perda física de alguém, as lembranças desses momentos, pessoas e lugares que somos obrigados a deixar para trás podem nos machucar - e muito.

    Esse sentimento se impôs a mim recentemente quando me deparei com a foto do meu filho pequeno. Olhei para aquele bebê e senti saudades dele, sentimento estranho, pois meu filho estava ali, ao meu lado, em carne e osso. Teoricamente esse adolescente de hoje é o mesmo menininho de dez anos atrás. Mas na prática não é: o relacionamento, o lugar que ocupo na vida dele, a visão que ele tem de mim, não são absolutamente os mesmos. Tenho que fazer o luto daquele momento da minha vida de mãe e de tudo o que aquele período representava. Meu papel agora é olhar para a frente, dando-lhe autonomia e independência para que meu filho voe com as próprias asas. É o grande paradoxo da maternidade: quanto melhor se cria um filho, mais alto ele voa e muitas vezes para bem longe de nós. 

    Fiquei tentando entender porque é tão doloroso. Afinal, assim é a vida, todos crescemos, evoluímos e não somos os mesmos de dez anos ou mesmo um ano atrás. Por que então pensar em meu bebê me traz uma doce amargura? A resposta finalmente é simples e profunda: por que somos obrigadas a desatar um nó bem amarrado, sair desses parênteses encantados no qual o apego à nossa cria, que nos invade selvagemente e libera nossos instintos animais, nos colocou. Esses mesmos instintos que lutamos para dominar durante toda nossa vida social, principalmente nos papeis que revestimos como mulheres, podadas por exigências e regras morais muito mais estritas que as dos homens. Com a maternidade reconstruímos uma identidade dominada por um amor profundo, bestial, dessa vez totalmente autorizado e até mesmo legitimado pela sociedade (contrariamente a outras formas de amor), sem as barreiras que fomos obrigadas a construir. Nesse espaço suspenso e provisório um serzinho indefeso e totalmente vulnerável depende de nós. Devemos protegê-lo e defendê-lo contra os numerosos males da vida. É muito fácil se acostumar com essa liberação afetiva que toca nosso âmago e desperta emoções até então insuspeitadas, sem autocensura, aprendendo a lidar com a ideia de uma constante solicitação e da necessidade que esse serzinho tem da nossa presença. É um período da nossa vida em que nos sentimos valorizadas e amadas como nunca antes, nosso papel ali é central, essencial e até mesmo vital. Nesse curto espaço de tempo tornamo-nos, enfim,  importantes para alguém, nosso ego é alimentado cotidianamente nessa relação que implica resignação e doação, mas cujo retorno é imediato porque nos é devolvido envoltos de uma rara pureza. 

    E tudo isso se desmorona repentinamente, como chegou. Na adolescência toda essa devoção tão simples de construir, com nossas tripas, deve ser racionalmente desconstruída. Nosso papel agora consiste no extremo oposto do que vinhamos fazendo até então, devemos nos tornar desnecessárias, ensiná-los a se virar sozinhos, dizer-lhes que não devem mais depender de nós e mostrar-lhes que são capazes disso. Instala-se uma luta feroz entre a vontade louca de tê-los sempre por perto, eternamente agarradinhos como naqueles primeiros anos mergulhados num afeto genuíno, fora desse mundo-cão, e a imprescindibilidade de torná-los independentes... e livres. Eis aqui a resignação suprema: ajudá-los a deixar o ninho e observá-los entrar num mundo hostil andando pela rua escura e levando com eles um pedaço da nossa alma.

     

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  • O sentido do "sim"É possível que Freud explique, mas até hoje eu mesma não sei exatamente porque casamentos me irritam. Não a instituição casamento que constitui a base social de muitas sociedades, a qual eu respeito e na qual me sinto bem com meu chéri. Acho que o que mais me exaspera é o conjunto de imagens associadas principalmente às cerimônias de casamento cujo sentido parece ter-se perdido nos meandros do estilo de vida moderno. Bem fazem os povos de língua inglesa que distinguem ambos, atribuindo um vocábulo para cada um, wedding para a festa e marriage para a instituição. Pois embora eu ache que a importância dada ao cerimonial seja excessiva, respeito totalmente a união de duas pessoas de quaisquer sexos e modalidades. Afinal, como já diziam Lennon e McCartney, all we need is love. 

    Pensando bem, o que me deixa mesmo furiosa é uma certa visão romântica do casamento difundida através de filmes, novelas e romances, na qual a mulher aparece como a eterna suplicante diante de um macho estoico. Aquela que, desesperada, se joga no chão para pegar o buquê no casamento da amiga e que espera, com trêmula emoção, o pedido de casamento feito pelo homem, viril. Pedido esse que representa, nessa construção imaginária, o ápice simbólico da felicidade feminina, tolice extrema quando se sabe que, objetivamente, é a mulher que mais tem a perder nos moldes ainda atuais da vida a dois, nos quais as tarefas domésticas são exercidas majoritariamente por ela (estatisticamente comprovado), que acumula duas ou mais jornadas de trabalho. E essa visão quimérica é mistificada pelas opulentas festas de casamento que concretizam o dia mais feliz das nossas vidas, com seus vários símbolos e adereços, e se impõem como um happy end, um rito de passagem a partir do qual as personagens seriam felizes para sempre. Na linguagem publicitária, eu diria que é uma propaganda enganosa.

    Todas as sociedades, modernas e primitivas, são pontuadas de rituais que, em seu aspecto funcionalista, deveriam atribuir significados à vida social. Mas é justamente esse sentido que me parece nem sempre ser considerado, levando as pessoas a práticas mecânicas nas quais ele desaparece sob a forma de uma obrigação social que nada tem a ver com a simbologia ritual. O sentido atribuído a um rito era um assunto recorrente em minhas aulas de antropologia e a falta dele recebia até um nome, chamava-se neurose obsessiva, uma patologia psicanalítica que as ciências sociais tomaram emprestada para caracterizar comportamentos que as pessoas adotam sem saber exatamente porquê, frequentemente desconhecendo o sentido que as levaram a praticá-los. 

    Recentemente, porém, a descoberta de um dado histórico veio me reconciliar com esse ritual. Aprendi, com a historiadora Michelle Perrot, que a cerimônia de casamento se inscreve na história da transformação social da mulher, quando esta deixa de ser objeto para se tornar sujeito social. Esse momento seria, inclusive, a principal etapa dessa metamorfose, e deve-se ao papel exercido pelo cristianismo que, apesar de seu tradicional machismo, impunha a ideia de que homens e mulheres são iguais diante de Deus. Foi partindo dessa concepção que o consentimento das mulheres no sacramento do casamento passou a ser exigido a partir do século XIII. Até então, as moças eram forçadas a se casar com quem lhes fossem impostos pelas mais diversas razões (patrimonial, patronímica etc.) dentre as quais o sentimento não era evidentemente um critério considerado, muito menos o das mulheres. Com essa mudança, o consentimento da mulher se torna necessário, ela deveria dizer "sim" diante de a mais alta autoridade que naqueles anos era exercida pelos eclesiásticos, para confirmar que seu ato era deliberado. O consentimento feminino trouxe, com ele, o casamento por amor, uma grande novidade histórica, consequência direta do advento do sujeito mulher.  

    Quando terminei de ler essa entrevista há alguns dias, a visão que eu tinha dessa cerimônia se interverteu, de tradicional e conservadora tornou-se moderna e liberadora. Por total ignorância histórica, eu julgava uma cerimônia ritual negativamente quando, na prática, sua função social foi transformadora, confirmando, mais uma vez, a importância do sentido atribuído a nossos atos, mesmo - e talvez sobretudo - os que já foram automatizados por todos. Ao mesmo tempo, não podemos negar que, desde então, o mundo evoluiu e, com ele, as instituições sociais. Fiquei me perguntando, sem obter uma resposta, qual seria o sentido atribuído, hoje, a esse cerimonial? No que me diz respeito, continuo não gostando do véu e da grinalda.

     

    Entrevista com Michelle Perrot no Les Hors Série de L'Obs, " Peut-on échapper à la domination masculine ? " (Podemos escapar da dominação masculina?") n° 102, juillet 2019.

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  • Lévi-Strauss outra vezHá alguns dias assisti ao delicioso filme Yesterday, que conta a história de Jack Malik, o único ser na terra a se lembrar dos Beatles. Depois de um acidente, Malik acorda num mundo no qual esse grupo nunca havia existido, suas músicas não eram conhecidas e...bom, não vou contar mais nada para não estragar o fim. Porém, na continuidade lógica dos fatos, tudo o que estava diretamente ligado à existência dos Beatles também não existia.

    Comecei, então, a imaginar o mundo atual sem a existência de alguns grandes personagens que admiro. E como eu tinha acabado de terminar - depois de três anos! - o livro Lévi-Strauss de Emmanuelle Loyer, pratiquei esse exercício com ele. Como considerar a antropologia sem os estudos americanistas dos quais Lévi-Strauss foi um dos precursores? Como imaginar a evolução do pensamento antropológico sem a reviravolta do olhar sobre o lugar das sociedades ocidentais no mundo provocado por ele, no qual, até então, uma visão hierárquica subentendia que todas as sociedades seguiam uma trajetória evolucionista comum no fim da qual o modelo ocidental seria o Santo Gral, colocando todas as outras sociedades numa espécie de anacronismo permanente? Como pensar nas pesquisas etnológicas sem ter em mente o estabelecimento de um olhar distante e das teorias estruturalistas? A lista de sua contribuição é muito longa e vão muito além do aporte teórico, sua contribuição institucional também é grande, inclusive com a criação do Laboratório de Antropologia Social.

    Nesse post, eu gostaria, contudo, de prestar homenagem a Emmanuelle Loyer por seu livro e pelo trabalho de pesquisa gigantesco que ela realizou para redigi-lo. Pois através da biografia de Lévi-Strauss, foi a história da antropologia que ela retraçou. Ela descreve com detalhes os primeiros anos do jovem professor cuja trajetória é inevitavelmente influenciada pela História com um H maiúsculo, em particular a dos judeus nos anos 1930, que o levou ao Brasil, marco decisivo em sua vida e, mais tarde, aos Estados Unidos, que também terá uma grande importância na amplitude que adotará seu trabalho no mundo anglo-saxão e seu alcance internacional. A autora conta também os bastidores de sua nominação no Collège de France, as brigas egoicas, as rivalidades pessoais e, principalmente, o que mais me impressionou, ela expõe as teorias levantadas em cada um de seus livros, assim como as contra teorias e polêmicas engendradas pelos mesmos no período de sua publicação. Ela contextualiza cada momento de sua existência com detalhes sociológicos e históricos numa cronologia pontuada de idas e voltas. É como se, em seu livro, Emmanuelle Loyer humanizasse o monumento Lévi-Strauss e desse ao homem uma aura patrimonial.  

    Quando estudei etnologia na Universidade Lumière em Lyon, já havia assimilado a importância da contribuição de Lévi-Strauss a essa disciplina, mas não imaginava, até ler esse livro, o quanto ela foi fundamental e fundadora. Através dele, compreendi o quanto seu pensamento foi inovador, admirado, mas também criticado, e gostaria de afirmar, por iniciativa própria, que ele foi de uma extrema lucidez premonitória quando se constata o estado do mundo de hoje.

    Os três anos necessários para a leitura de Lévi-Strauss devem-se a sua densidade e ao desejo que ele desperta de ler ou reler alguns de seus textos a fim de verificar um detalhe que pudesse ter me escapado. Eu mergulhei outra vez em meus estudos etnológicos, com uma certa nostalgia, lamentado que Emmanuelle Loyer não o tivesse escrito vinte anos atrás, pois é certo que eu me sentiria um pouco menos perdida nas aulas magistrais do Professor Verdier.

    Lévi-Strauss, par Emmanuelle Loyer, Flammarion, 2015.

    Obs.: Em 2016, quando havia começado a ler esse livro, eu havia escrito um pequeno post sobre ele: Lévi-Strauss

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  • Os limites do meu feminismoEntre Montpellier e Lançon de Provence, sozinha, em meu carro, sob um sol de verão a pino. Acabei de deixar meu filho com os avós. 

    Em dezoito anos de casamento e quinze anos de maternidade, perdi o hábito de escolher, sem consulta prévia, sem discussão e negociação, o próximo destino ou o caminho a tomar para atingi-lo. Decidi, unilateralmente, pegar as estradinhas provençais, mais longas, para admirar os ciprestes, os campos de lavanda típicos da região e abrir as janelas para ouvir as cigarras onipresentes no sul da França. Esse trajeto muito provavelmente não teria sido eleito majoritariamente se a família estivesse completa. 

    Depois de um ano difícil marcado por um doloroso luto, precisava mudar de ares para resguardar minha saúde mental. Logo que as férias escolares começaram, desci para a Provença, meu pequeno paraíso terrestre, onde ficarei sozinha por algumas semanas, até meu marido chegar. Em meu devaneio, lembrei que tinha que abastecer a geladeira, amanhã é domingo, tudo estará fechado. Parei no primeiro mercado que encontrei em meu caminho. Ali, diante das prateleiras repletas dos mais diversos patés, tapenades, panis, vinhos e queijos variados, tive um grande momento de hesitação: eu não lembrava mais muito bem do que eu realmente gostava. Há tantos anos priorizando os gostos de meu filho e marido, foi insólito me deixar levar assim, levianamente, pelo meu único e íntimo desejo culinário. Sentia-me quase culpada. Servi-me de salaminhos, azeitonas recheadas, pissaladière e algumas cervejas. Saí do mercado altiva, mas olhando para os lados, como se temesse que alguém me pegasse em flagrante delito. 

    Não posso negar que ao deixar meu marido na Alsácia e meu filho em Montpellier senti meu coração apertado. Fui meio que me arrastando. Porém, este momento de solidão está sendo fecundo ao me consentir uma reconexão comigo mesma, com meus gostos e desejos, muitas vezes afogados numa forma de altruísmo feminino inconscientemente implícito em nossos papeis de esposa e mãe. Como se uma forma de doação progressiva fosse se instalando sorrateiramente, como se uma anulação de si fosse se introduzindo imperceptível e docemente, pois é compensada por um amor incondicional, indescritível e imenso!

    Talvez por isso predomine esse sentimento estranho, misto de melancolia e orgulho por ter vencido meu pior inimigo - eu mesma - e decidido vivenciar esse momento de reencontro comigo mesma, do qual tomo consciência somente ali, dirigindo meu carro, sozinha, entre Montpellier e Lançon. De repente me senti feminista outra vez, como fui em meu passado não tão distante.

    Cheguei em meu destino, tomei uma ducha e, feliz, fui me deitar. Mas eis que um inseto asqueroso havia decidido, sem me consultar, fazer-me companhia. A primeira reação foi correr, mas como eu não tinha para onde ir, tive que enfrentá-lo. Travamos nossa luta. Peguei um pedaço de papel e, corajosamente, tentei pegá-lo com minhas próprias mãos, com a intenção de jogá-lo no jardim. Em tempos de extermínio animal, tento manter até mesmo insetos asquerosos vivos, necessários à biodiversidade. Ele foi reativo e mais esperto que eu, saiu correndo para debaixo da cama. Vencida, peguei meu travesseiro, fechei a porta do quarto e fui dormir no sofá da sala. Um a zero para o Forficula auricularia. No dia seguinte, bati na porta do proprietário pedindo socorro. E foi assim que descobri, perplexa, que os limites do meu feminismo adotavam as formas de uma vulgar lacraia.  

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  • O "mercado da arte" Beleza pura é, para mim, um grande paradoxo ou, mais ainda, uma antinomia revelada em sua própria sintaxe: os termos "mercado" e "arte" não deveriam aparecer juntos numa mesma frase, quiçá formar uma expressão. É evidente que os artistas precisam vender suas obras para viver, a pintura é uma profissão para além de uma vocação, e ninguém vive de sombra e água fresca. O que me incomoda é constatar no que o mercado da arte se tornou, transformando obras primas em objetos de especulação como uma vulgar ação financeira. 

    Não é segredo para ninguém que as obras de Van Gogh, que morreu pobre, discriminado, incompreendido de todos e sustentado por seu irmão, são negociadas nesse mercado a preço de ouro, enriquecendo mercadores de arte, mas não somente, pois comerciantes de diferentes tipos vendem canecas, canetas, posteres, imãs de geladeira, bolsas e quaisquer objetos imagináveis no qual se possa reproduzir imagens de seus girassóis, suas papoulas, seus campos de trigo, seus personagens e sua noite estrelada. 

    Essa última deu, inclusive, o título a uma exposição de som e luz que está acontecendo atualmente no L'Atelier des Lumières, em Paris, a qual eu tive o privilégio de assistir essa semana. Sei que não sou a única admiradora genuína desse grande artista, mas não tenho certeza absoluta se as milhares de pessoas que se amontoam nas filas diariamente desde que a exposição começou conhecem a vida e a obra do pintor ou se estão ali por modismo ou esnobismo. O fato é que o espetáculo será certamente apreciado em seu justo valor por aqueles que conhecem a história de vida, a trajetória, os états d'âme de Van Gogh, e principalmente, os lugares e personagens reproduzidos nas quinhentas telas que transcorrem, uma atrás da outra, em 360°, com um fundo sonoro que inclui a voz rouca de Janis Joplin. Fiquei, porém, extremamente decepcionada por não ter ouvido Vincent (Starry, Starry Night), de Don McLean, que descreve tão bem a alma e a obra do pintor, ela teria sido perfeita no enlace final, simultaneamente à noite estrelada. Esperei por essa música o tempo todo que finalmente não tocou, mas que esteve na minha cabeça do início ao fim.

    Felizmente a escuridão da sala escondeu as lágrimas que escorriam descontroladamente de meus olhos abugalhados diante desse gigantesco quadro em movimento. Saí de lá me perguntando o que teria me provocado tamanha emoção. A resposta é simples e límpida: tudo o que esse grande homem tinha em suas entranhas e soube, como poucos, externar com tintas e telas, formas e cores: a expressão de uma beleza pura.   

     

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  • O binarismo brasileiroQuem me conhece sabe que sempre fui fã de filmes franceses. Quando morava no Rio, buscava as salas que os projetavam, geralmente nas Alianças Francesas ou em pequenos cinemas como o Estação Botafogo. Lembro que era difícil encontrar companhia para assisti-los, alguns amigos me diziam que os filmes franceses pareciam terminar sem um enlace final e que a moral da história não parecia clara. Pensei, então, que possivelmente essa dificuldade de leitura de um filme francês por parte dessas pessoas se devesse ao fato de, ali, não saberem exatamente para quem "torcer", pois, neles, não há bandidos ou mocinhos, vilões ou heróis. Eles refletem a vida real em que nós, miseráveis humanos, temos qualidades e defeitos, fraquezas e grandeza na alma. Desse lado aqui do atlântico, sabe-se que a visão simplista e maniqueísta do mundo na qual o bem e o mal estão devidamente identificados não existe na vida real, aceita-se que a natureza humana é falha, os personagens são mostrados em toda a sua complexidade, com nuances, questionamentos, dúvidas, próprios à natureza humana. Uma mesma pessoa pode exercer ações nobres e ter alguns momentos de mesquinhez; ela pode ser vista por um amigo como incrível, mas pelo seu chefe como incompetente; pelo seu cônjuge como uma amante liberal, mas pelo seu filho como autoritária. Ninguém é totalmente bom ou totalmente mau, tudo depende do momento, da perspectiva, do contexto ou da situação. E isso inclui posicionamentos diante da diversidade de conjunturas políticas.

    Como, por exemplo, o do presidente francês Emmanuel Macron diante do movimento social dos coletes amarelos, inédito em sua História, devido à ausência de um interlocutor e de reivindicações claras. Ele revela, contudo, insatisfações sociais profundas que vão além das medidas tomadas pelo governo atual, pois esse movimento questiona o sistema econômico-financeiro como um todo, o que ultrapassa as fronteiras nacionais. Ele tem gerado manifestações violentas, com deterioração do patrimônio cultural e muitos feridos. Porém, tanto no discurso do presidente Macron quanto no da população em geral, é feita uma distinção clara entre aqueles que reivindicam medidas justas em prol de melhorias na qualidade de vida, e aqueles que usam a violência como expressão. Separa-se, assim, objetivamente, o joio do trigo. 

    No Brasil as coisas não são bem assim. É um fato incontestável que a sociedade brasileira tenha se dividido em dois grandes grupos desde as últimas eleições presidenciais: os que se posicionavam a favor e contra o candidato Bolsonaro, distinção que se perpetua contundentemente mesmo depois da posse do presidente. É o próprio da democracia pessoas manifestarem seu apoio a candidatos diferentes. O que não me parece tão banal, é essa divisão se manter, hoje, sem modulações, sem distância, sem análise. Afinal, todos os cidadãos brasileiros deveriam estar unidos contra ou a favor de medidas adotadas pelo governo atual, independentemente da escolha do voto de cada um. Somos todos cidadãos brasileiros almejando o bem comum ou, vulgarmente falando, estamos todos na mesma canoa furada. Tenha-se votado ou não no atual presidente, as medidas adotadas em seu governo deveriam ser analisadas com base no benefício que ela deveria trazer para a sociedade como um todo. Mas não é o que está acontecendo. Essa dicotomia da sociedade brasileira, sem graduações, revela, para mim, o binarismo cultural que predomina em determinadas camadas da nossa sociedade.

    No sistema de pensamento binário dessa camada da sociedade brasileira, é necessário escolher um lado, identificar o bandido e o herói, precisa-se de vilões e mocinhos, sem os quais não se sabe para quem "torcer". Decidiu-se, então, que o bandido era o governo precedente e, consequentemente, tudo o que foi feito durante todos aqueles anos foi invalidado, os erros, mas também os acertos. Como diriam os franceses, jogou-se fora o bebê junto com a água da banheira. Não há separação entre o que foi feito de positivo para o país, não se considera dados estatísticos comprovados interna e externamente por órgãos apartidários reconhecidos internacionalmente, não há análise de fatos. Esse mesmo comportamento se expressa para aceitar tudo o que é feito pelo presidente atual, sem análise crítica das consequências de determinadas medidas, sem questionamento sobre que categoria social será beneficiada ou prejudicada por elas. Na continuidade desse raciocínio, a política é discutida como se discute um jogo de futebol, com e emoção e paixão. Mas o fato é que não se "torce" por um governo. A ideia de "torcer para dar certo" subentende a passividade do povo, a submissão do cidadão diante das ações governamentais, a aceitação sem reivindicação. O atos políticos devem ser analisados, questionados ou endossados, de acordo com o benefício que tais medidas trarão para a sociedade. Não se "torce" para um governo como se estivesse num fla-flu, cujo resultado final depende exclusivamente dos jogadores. No jogo político, o eleitor-cidadão tem um papel ativo e influencia no resultado final. Conceber a política como se o cidadão exercesse um simples papel de observador como um torcedor de futebol não considera que a instauração de um estado democrático é o fruto da racionalidade política. 

    Nenhum governo será perfeito, nenhum governo agradará a todas as categorias sociais. Contudo, é sabido que o estabelecimento de uma sociedade moderna é fundado na primazia do bem comum que deve se posicionar impreterivelmente acima dos interesses pessoais e particulares em qualquer governo, qualquer que seja sua orientação ideológica. Analisemos dados, fatos, medidas e suas consequências para além das pretensas intenções, para além dos discursos. A leitura do mundo deve ir além da ponta visível do icebergue. 

     

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