• O rosa e o azulAo escolher o título desse post, quis fazer um paralelo com o livro O Vermelho e o Negro de Stendhal. Porém, mesmo se esse autor aborda as imbricações de gênero, classe social e religião em seu grande romance, o Brasil de Bolsonaro não é a França da Restauração. Embora qualquer comparação seja fortuita e leviana, não pude evitar de fazer a brincadeira com o nome das cores rosa e azul, objeto de uma recente polêmica na sociedade brasileira bem mais significativa do que parece. 

    Observei reações diversas à declaração da Ministra Damares Alves ao dizer que meninas devem usar rosa e os meninos azul. Adorei ver artistas, políticos e pessoas anônimas postando fotos vestidos de rosa ou azul num ato de divertida desobediência civil numa época dominada pelas redes sociais. É um modo legítimo de transmitir um desacordo. Mas houve também quem dissesse que deveríamos nos preocupar com questões mais graves do que a cor da roupa. Parece-me inquestionável que existam questões mais graves na sociedade brasileira de hoje, porém, sabemos todos que a questão aqui não se limita à cor da roupa. Ela vai muito mais além.

    O fato é que a vida social é construída de símbolos que transmitem significados múltiplos. A simbologia é muitas vezes mais enfática e incisiva que longos discursos, pois envia uma mensagem instantânea ao nosso cérebro, geralmente mais duradoura. Nesse caso em particular, a ministra não quis determinar que cores deveríamos usar, ela sabe pertinentemente que não tem o direito nem o poder de dizer como cada um deve se vestir. Nessa frase simples e curta, a Ministra Damares Alves quis passar uma mensagem carregada de um significado sem ambiguidades: ela vem afirmar que no que estiver ao alcance do seu ministério, os papeis de gênero serão claramente definidos, e o sexo determinará o lugar de cada um na sociedade. 

    A divisão da sociedade pelo gênero existe em diversas sociedades tradicionais contemporâneas. Essa divisão consiste em construções sociais que se apresentam de diversas formas pelo mundo. Muitas são, inclusive, matriarcais, ou seja, a liderança é exercida por mulheres: os Bribri, na Costa Rica, são governados por mulheres, as únicas que têm o direito de possuir terras e resolver problemas vetados aos homens; para os Mosuo, no Tibete, a autoridade social também cabe às mulheres, assim como para os Nagovisi da Papua Nova-Guiné. Esses são só alguns exemplos.

    No Brasil, o modelo familiar tradicional é o patriarcal. Nele, a mulher é subordinada ao homem numa "visão estereotipada dos papeis de gênero [que] colocam o homem num papel de esfera pública e trabalho remunerado e a mulher na esfera privada, cuidando do lar e da família". Essa visão implica a superioridade simbólica do homem, a quem tudo é permitido, e a inferioridade simbólica da mulher, a quem direitos foram negados durante décadas e cujo espaço social é extremamente limitado.

    Porém, modelos de sociedades tradicionais são incompatíveis com a forma de organização moderna, pois é o próprio da modernidade romper com as tradições. Ela "se constitui com critérios próprios, e não com relação a um passado estéril" e busca novos modelos de organização política que colocam o indivíduo no centro da sociedade. A modernidade estabelece o princípio da igualdade de todos perante a lei, pois, como afirmou Alexis Nouss, "o individualismo moderno é o fundamento da democracia, e não o inverso". Essa igualdade individualizada é a base do sistema democrático e deveria apagar as diferenças sociais, sexuais e raciais na reivindicação dos direitos de cada um. 

    Nenhum defensor da igualdade de direitos pretende negar diferenças biológicas ou comportamentais entre o homem e a mulher, mas afirmar que somos iguais em direito apesar delas. Creio, então, que devemos ficar atentos à simbologia por detrás da aparente descontração. Não minimizemos qualquer discurso por mais divertido que pareça, pois ao procurar retornar à uma atribuição de papeis conforme o gênero, a nova ministra vem, consequentemente, recusar a igualdade de direitos políticos, econômicos, culturais, sociais e jurídicos à mulher e aos que não se inserem no modelo familiar tradicional brasileiro reivindicado por ela, no qual a separação de papeis é límpida como se os homens usassem azul e as mulheres usassem rosa. 

    Referências: 

    Entre o Rosa e o Azul: Uma Sociedade Regida por Papéis de Gênero, por Grazi Resende. 

    La modernité, Alexis Nouss, PUF, Paris, 1995.

     

    Partager via Gmail Yahoo! Blogmarks

    votre commentaire
  • O particularismo do universalismoNa revista francesa L'Obs da semana passada, a filósofa Nadia Yala Kisukidi apresentava o livro " En quête d'Afrique(s) " do filósofo Souleymane Diagne e do antropólogo Jean-Loup Amselle em um artigo intitulado " L'universalisme est-il un particularisme ? " (O universalismo é um particularismo?). Nesse livro, esses dois pesquisadores submetem a oposição universal-particular ao pensamento pós-colonial e "descolonial", em voga na França, e afirmam que a cegueira de um certo universalismo colocaria em risco o universal, pois ele representaria a particularidade daquele que se proclama universal, neste caso, o Ocidente. Eles reivindicam um descentramento do pensamento para uma refundação das relações entre o Ocidente e a Africa sob novas perspectivas. 

    Há quinze anos eu havia abordado essa questão. Naqueles anos, Pierre Bourdieu e Loïc Wacquant falavam da violência simbólica representada pela universalização dos particularismos ligados a uma experiência histórica determinada, tornando certos conceitos e noções irreconhecíveis e truncados. Eu apliquei essa afirmação ao conceito de democracia que havia se tornado, desde o fim da Guerra Fria, um modelo político universal, como se fosse adaptável a qualquer contexto sociocultural, um "kit" já pronto, esvaziado de seu sentido pela dissociação de seu contexto de emergência particular. A transformação desse conceito em fato social é o produto de uma história própria a grupos sociais que, pela revolução, instauraram uma outra visão de mundo pelo estabelecimento de uma nova organização política. 

    Na continuidade dessa lógica, Thierry Michalon nos falava, em 1998, do fracasso das tentativas feitas na Africa para enxertar instituições sob a forma de Estado moderno em sociedades tradicionais nas quais o sufrágio universal havia se tornado nocivo ao conduzir a uma democracia unanimitária, utilizada para afirmar o poder de antigos déspotas. 

    Quanto a mim, democrata convicta, eu afirmava, contudo, que todos os esforços de instauração de uma democracia efetivamente participativa seriam nulos se fossem aplicados do exterior para o interior, de cima para baixo, sem a consideração dos valores que orientam uma determinada sociedade. Eu dava então o exemplo da sociedade brasileira. Sabemos que na história desse conceito, cujo trajeto foi iniciado por Aristóteles e levado a Rousseau, o povo seria o detentor da soberania legítima. Consequentemente, a cidadania seria a fonte dos laços sociais e os indivíduos seriam todos iguais diante da lei. 

    Ora, essa configuração está muito distante da realidade no que diz respeito à hierárquica sociedade brasileira. Não somente a ideia de igualdade é, ali, abertamente recusada por uma parte significativa da população, mas a instauração de uma suposta democracia parece ter aberto o espaço para as mais diversas manipulações que inclui o questionamento desse regime, cujo mais significativo exemplo foi dado nas últimas eleições presidenciais: tendo o poder de escolher o representante para o cargo supremo, 57,8 milhões de brasileiros elegeram o candidato que enaltece o antigo regime ditatorial contra os quais os democratas tanto lutaram, e que defende a volta do autoritarismo governamental e da censura. Enquanto na França e nos Estados Unidos, os dois contextos de emergência desse conceito, a democracia é defendida como um princípio político fundador inalienável, no Brasil, seu aspecto representativo é apresentado como o único efetivo, ela se acomoda, nesse contexto, em sua cultura política autoritária secular. O povo soberano entrega, assim, democraticamente, o poder a seu próprio carrasco. Esse evento me parece ilustrar as dificuldades decorrentes do universalismo de noções e conceitos particulares, e revela o enorme paradoxo representado pela escolha de dar o poder àquele que retirará todo o direito de escolha. Resta aos que crêem na democracia igualitária como valor, a pratica  da resistência.

     

    Références :

    L'Obs du 20 décembre, page 116.

    L'institution imaginaire de la non-citoyenneté au Brésil : l'individu et la personne, Lineimar Pereira Martins, pages 73-83, in Usages sociaux de la mémoire et de l’imaginaire au Brésil et en France, Presse Universitaire de Lyon, collection CREA 2001. 

    O Brasil para inglês ver, Lineimar Pereira Martins, Clube de Autores, 149 páginas, 2002.

    Partager via Gmail Yahoo! Blogmarks

    votre commentaire
  • A axiologia de Jair BolsonaroEm alguns dias, um novo presidente tomará posse no Brasil. Em diversos posts que publiquei no Facebook, comentei o quanto essas eleições foram marcantes para a sociedade brasileira para muito além do seu aspecto puramente político. Elas representam um real divisor de águas, pois o candidato eleito não veio modificar a ideologia política com a qual vai governar, ele já está modificando a axiologia da sociedade brasileira. 

    A axiologia seria, grosseiramente, o conjunto de valores que predominam numa sociedade. Em toda sociedade, existem diversos valores que coabitam, pessoas com opiniões, gostos e hábitos diferentes vivem juntos num mesmo espaço social. Porém, alguns valores predominam sobre outros, determinando o que seria correto ou errado, devido ou indevido e, em última instância, o que representa o bem e o mal num determinado grupo social. 

    O "viver junto" não é simples em sociedade nenhuma, e é por isso que existem regras e leis. Como diz o velho ditado, "a liberdade de um começa quando termina a do outro". Todos os grupamentos humanos evoluem, o que era indevido num determinado momento numa sociedade específica pode tornar-se correto, o que era um delito se banaliza e deixa de ser delito, e o que era uma ato comum pode tornar-se um crime passivo de prisão.  

    O sociólogo alemão Norbert Elias descreve em seus diversos livros o que ele chama de processo civilizatório ocorrido nas sociedades ocidentais da idade média até aos anos 1980. Esse processo inclui, entre outras coisas, o controle de nossas pulsões agressivas, inerentes ao ser humano, para o estabelecimento de uma sociedade respeitosa das diferenças no modo de ser, de pensar e agir de cada um. Esse autocontrole se complexifica conforme os grupamentos sociais evoluem, a tendência a um domínio cada vez mais refinado e sutil de si mesmo se torna indispensável para evitar a informalidade excessiva característica de uma sociedade permissiva. Norbert Elias era descendente de judeus e conheceu a barbárie da Alemanha nazista. Ele sabe do que fala.

    A vida em sociedade exige, assim, o autocontrole de cada um, custe o que custar. Esse autocontrole seria a condição sine qua non para uma sociedade harmoniosa e pacífica, para a viabilidade do viver junto. E é precisamente esse autocontrole que o novo presidente brasileiro veio quebrar ao produzir um discurso isento de filtros sociais ao hierarquizar hábitos, ao criticar diferentes modos de ser e de pensar, ao recriminar grupos específicos e classificar a sociedade que pretende governar pela cor da pele, lugar de nascimento, fé religiosa e preferências sexuais simplesmente por serem diferentes do que ele considera como certo. E, principalmente, ao fomentar a violência como a resposta para todos os males. Essa violência, cujo controle se encontra no centro do processo civilizatório, torna-se, sob seu governo, legítima.

    O novo presidente, ao legitimar a violência, o racismo, o sexismo e a discriminação social, considerados até então comportamentos sociais desviantes do que seria politico-socialmente aceito, reposiciona-os como valores válidos. Desde o início de sua campanha, um tabu civilizatório foi quebrado, o que era errado e indevido banalizou-se e vem tornando-se, pouco a pouco, os valores dominantes na sociedade brasileira. É através desses valores que a sociedade brasileira será vista e reconhecida dentro e fora do território nacional. São esses mesmos valores que se encontram no centro do processo civilizatório contra a barbárie e que têm sido combatidos desde a idade média nas sociedades ocidentais. 

    Quando o grande escritor alemão Stefan Sweig chegou ao Brasil nos anos 1940, ficou fascinado com o que encontrou. Ao escrever que o Brasil seria o país do futuro, Sweig referia-se a nossa tão proclamada democracia racial que se opunha à Alemanha nazista de então, cujo arianismo se construía como valor dominante. Espero profundamente que a nova axiologia bolsonariana não encontre um terreno fértil, e que o meu Brasil, aquele descrito por Sérgio Buarque de Holanda, cantado por Dorival Caymmi e defendido por humanistas do mundo inteiro, continue a se escrever com S até ao fim de seu mandato. 

     

    Partager via Gmail Yahoo! Blogmarks

    votre commentaire
  • Em nome da mãeHá algumas semanas, escrevi um post intitulado Que família tradicional? no qual dei alguns exemplos de linhagens que fugiam ao esquema considerado tradicional no ocidente onde o modelo pai-mãe-filhos é sacralizado. A família tradicional seria, assim, em diversas sociedades ocidentais e com diferentes graus de profundidade, apresentado como único modelo de constituição familiar válido. 

    As transformações desse modelo nas sociedades modernas são, contudo, inevitáveis, inerentes ao processo democrático, o conservadorismo que pretende colocá-lo como uma instituição imutável é contraproducente e até mesmo incompatível com o princípio constitucional que afirma que todos são iguais diante da lei. Se, até então, a dominação masculina implícita na família patriarcal era considerada "natural", as reivindicações feministas de igualdade de direitos vêm modificar radicalmente essa estrutura. 

    Aqui na França, as primeiras denúncias de misoginia foram feitas, segundo Simone de Beauvoir, no século XV pela escritora Christine de Pisan em seus livros Cité des Dames (1404) e Livre des trois vertus à l'enseignement des dames (1405). Desde então, muitos direitos foram conquistados pelas mulheres, alguns dos quais são hoje totalmente banalizados, mas que haviam sido considerados uma afronta na época em que foram reivindicados: o direito à educação escolar, o direito ao voto, o direito a ter uma conta em banco, o direito de dirigir etc. 

    Embora todas essas conquistas sejam notórias, ainda temos um longo caminho pela frente na luta contra o machismo que eu chamaria de "residual", aquele escondidinho no imaginário social expresso em gestos, piadas, olhares, atitudes quase imperceptíveis pois não são vistos como tal, mas cuja persistência seria uma barreira para uma sociedade verdadeiramente igualitária, sem entraves, num futuro próximo. Esses comportamentos inconscientes são os mais difíceis de ser combatidos porque nem sempre podem contar com a força da lei que age como um deslegitimador progressivo, até que os membros da sociedade em questão entendam, uma vez por todas, que tal ato é inapropriado e ofensivo. 

    Consciente desse processo, fiquei muito surpresa quando descobri que, aqui, aos filhos é atribuído o nome do pai. Somente o do pai. Essa patrilinearidade parece não incomodar as dezenas de mulheres com as quais conversei sobre o assunto. Amigas que têm dois (ou mais) filhos de pais diferentes não se questionam sobre o fato de seus filhos não possuírem nada que os identifique como irmãos naquilo que constitui sua identidade primordial: seu sobrenome. Eles tampouco compartilham esse traço identitário com primos por parte de mãe. A individualidade materna desaparece, assim, sob o peso da administração pública, diluindo-se, pouco a pouco, sob uma linhagem patrilinear não questionada até então. Grande paradoxo numa sociedade tão cartesiana. 

    Meu filho nasceu no Brasil onde foi registrado equifinalizavelmente com meu nome e o do seu pai. Porém, nos trâmites de registro no estado civil francês, meu nome se perdeu, escafedeu-se nos meandros da lei, onde foi registrado somente com o nome de meu marido. Senti uma estranha sensação ao ver o nome completo do meu filho sem a marca da minha existência. Entrei com um processo civil solicitando que meu sobrenome fosse incluído no registro francês de meu filho. Há dois dias recebi o deferimento do mesmo. O Estado me deu razão, embora meu gesto seja socialmente percebido por aqui como mais uma das minhas esquisitices, atribuído a um hábito cultural. Minha ação não foi por hábito cultural, meu ato não foi automático nem espontâneo, mas levado por uma profunda convicção igualitária. Em nome da mãe. Em nome de todas as mães.

     

    Partager via Gmail Yahoo! Blogmarks

    votre commentaire
  • Em meu precedente post "Nosso cérebro original", eu havia comentado os doze primeiros minutos do documentário "Le ventre, notre deuxième cerveau". Muito rica em informações, essa primeira parte era, contudo, somente um preâmbulo para o conteúdo restante, que, na minha opinião, envolve questões metafísicas fascinantes. 

    As descobertas científicas que revelaram a existência de um segundo cérebro e as relações estabelecidas entre este e o de cima foram feitas a partir de um desfuncionamento nessa troca manifesta na síndrome do intestino irritável. Os cientistas constataram que os neurônios de um paciente doente são muito mais ativos que os de um paciente são. O sistema nervoso do paciente doente aparece como hiperativo, revelando uma neurose intestinal desencadeada por um evento traumático. A partir de então, o paciente é tratado com métodos usados nas disciplinas psíquicas dentre os quais a hipnose. A química interna de nosso corpo influencia nossa mente e até mesmo nossos sonhos, ambos sensíveis às emissões de serotonina produzida em nosso cérebro de baixo.

    Os questionamentos que se impõem nesse momento das pesquisas são, para mim, desestabilizantes. Pois, se o sistema nervoso entérico, ao enviar sinais ao nosso cérebro, pode afetar o modo como nos sentimos, eles podem também agir no modo como percebemos o mundo através da nossa capacidade de pensarmos positiva ou negativamente, de resistirmos à depressão ou à ansiedade. Estaria, nosso inconsciente, situado em nosso estômago? O próprio Freud já dizia que o ego talvez se encontrasse ali. Ora, o lugar onde o inconsciente se encontra importa pouco, mas essa afirmação revira de ponta cabeça a percepção que temos de nós mesmos. 

    Um aspecto revolucionário dessa descoberta é a possibilidade de tratar mais eficazmente doenças neurovegetativas como a doença de parkinson, que teria sua origem no estômago. Até então considerada como uma doença que atinge uma zona particular do cérebro conhecida como substância preta, os pesquisadores constataram que ela é frequentemente precedida de problemas digestivos cujos sintomas migram para o cérebro até atingir suas faculdades intelectuais. A impossibilidade de uma biópsia no cérebro de um ser vivo impediam estudos essenciais, a descoberta da origem da doença no estômago possibilitará a realização de biópsias em seres vivos que anteciparão o diagnóstico em até vinte anos, permitindo um tratamento que atrase a evolução da doença. 

    Embora as pesquisas sobre trocas neuronais sejam recentes no ocidente, a medicina tradicional chinesa trabalha com as ligações existentes entre as diferentes partes do nosso corpo há milênios. Ela regula os fluxos energéticos que circulam no corpo, através, inclusive, da acupuntura abdominal, que age sobre nossas funções cognitivas e regula nossas emoções. Para o Dr. Bo Zhiyun, especialista nessa técnica, é o cordão umbilical que exerce um papel central no crescimento do embrião mesmo depois de ter sido cortado: ele seria o centro de desenvolvimento do corpo humano, cuja coordenação exercida sobre o resto do corpo é ainda pouco conhecida. 

    Mas as revelações não param aí. Os pesquisadores que trabalham sobre o eixo cérebro-estômago descobriram que nosso tubo digestivo é habitado por cem mil bilhões de bactérias. Ou seja, um microcosmo no macrocosmo mais denso do planeta. Existem mais bactérias no nosso estômago que células em nosso corpo. Seríamos, assim, mais bacterianos que humanos. Em suma, somos um ecossistema! 

    Como essas descobertas são recentes, os pesquisadores ainda estão investigando como funciona esse ecossistema apesar de já lhe terem dado um nome: microbiota. Carregamos de um a dois quilos de bactérias que produzem 30% das nossas calorias. Elas digerem uma parte dos alimentos que comemos para fabricar energia e nos ajudam a verificar o que é tóxico ou não para nosso corpo. Sem elas não sobreviveríamos. Esses estudos nos informam também que as características da microbiota de cada um são únicas, como nossas impressões digitais, e sua constituição depende de diversos critérios que não estão relacionados ao sexo, à raça ou à idade e nem mesmo ao lugar onde nascemos. Distinguimo-nos uns dos outros de acordo com a população de microbiotas que nos habitam, e somos divididos em três grupos denominados enterótipos, cujo diagnóstico facilitará o tratamento de diversas doenças num futuro próximo.

    Essas descobertas são revolucionárias para a medicina, mas não somente: nesses tempos sombrios de recuo identitário nos quais o racismo e o nacionalismo se afirmam como força política, uma caracterização do ser humano para além do lugar do nascimento, da cor da pele ou do sexo será mais que bem-vinda! 

     

    Partager via Gmail Yahoo! Blogmarks

    2 commentaires


    Suivre le flux RSS des articles de cette rubrique
    Suivre le flux RSS des commentaires de cette rubrique