• A legendagemFiz recentemente uma formação em legendagem que foi, para mim, uma grande descoberta. Quantas vezes já não criticamos uma legendagem ao assistirmos um filme ou documentário e observarmos que o que está escrito não corresponde exatamente ao que foi dito? Mas como em tudo na vida, críticas fáceis em geral são feitas por quem não conhece ou reconhece as dificuldades de um trabalho realizado. Afinal, quanto mais conhecemos um assunto determinado, mais nos tornamos tolerantes e compreensivos diante de eventuais erros ou enganos de outros. Isso ocorre com a legendagem. Quando se conhece as contrariedades e limitações para sua realização, compreende-se perfeitamente que aquela troca de palavra ou a supressão de um termo não foi um erro mas uma necessidade. 

    A legendagem seria então, sob alguns aspectos, o oposto do que costumo fazer quando redijo um texto acadêmico ou uma tradução científica. Nesses, procuramos termos complexos e sofisticados, optamos por uma certa elegância na forma, uma certa erudição. No caso da tradução, tentamos manter o texto traduzido no mesmo nível de complexidade do texto fonte. Pelo que aprendi nessa formação, o legendista, ao contrário, deve ser suscinto para que o tempo do texto corresponda ao tempo da fala, pois o tempo de leitura do espectador é menor. Ele deve também simplificar ao máximo pois o objetivo, ali, é abranger o maior público possível: quanto maior o público alvo, maior a heterogeneidade social, econômica e, por conseguinte, a compreensibilidade. Consequentemente, o legendista deve buscar expressões ou palavras que tenham o mesmo significado do texto original, mas que sejam curtas, simples e diretas. A palavra-chave da legendagem, diferentemente da tradução, é a concisão. A legendagem deve respeitar marcações e segmentos que, felizmente, não existem na tradução. Tudo é bem cronometrado e delimitado. Assim, a tradução para áudio ou mesmo a legendagem intralingual devem ser enxutas. 

    Resumindo as minhas impressões, diria que a legendagem é uma profissão em si, embora seja próxima da tradução em muitos aspectos, em particular na necessidade de transmitir significados de um emissor para um (ou vários) receptor(es). Eu adorei e aprendi muito.

    Para aqueles que se interessam pelo assunto, minha formação foi feita à distância com o Marco Azevedo. O curso básico tem uma duração de duas horas, mas existe a possibilidade de aperfeiçoamento caso necessário ou desejado. O Marco Azevedo foi extremamente paciente, inclusive com os meus parcos conhecimentos em informática. Ele oferece outros cursos na mesma área e emite um certificado após conclusão. Deixo abaixo suas coordenadas. 

    Tradução e legendagem - Marco Azevedo

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  • Drôle de propositionDe acordo com as estatísticas publicadas aqui e lá, o volume de trabalho de tradução mundial nunca esteve tão alto. Confesso, contudo, que algumas práticas me deixam cética quanto ao futuro próximo da nossa profissão. E também perplexa.

    Primeiramente, tem a questão dos valores propostos aos tradutores que se tornaram absurdos. Aproveito, inclusive, desse momento solene para fazer meu mea culpa e contar uma curta mas edificante experiência: aceitei um trabalho pago bem abaixo do meu custo habitual e ainda hoje me pergunto porquê. Na verdade, eu sei quais foram as razões que me levaram a esse ato: um momento de fraqueza, de vazio e de incompreensão diante do silêncio angustiante de agências e clientes a quem eu havia enviado meu Curriculum ou feito um teste. Quando eu comecei a duvidar de minhas competências, fiz a pergunta diretamente à responsável de uma agência. O problema era efetivamente o custo. Com uma mistura de alívio (não era por um problema de competência) e decepção, quis ir mais fundo nessa troca e aceitei os valores propostos, para entender como tudo isso funciona. A agência em questão era profissional, o trabalho simpático e até interessante, mas quando terminei a missão eu coloquei um ponto final também em nossa colaboração explicando que eu não poderia continuar com tais valores, pois estaria prejudicando a profissão. Claro que a sensação foi desagradável, afinal eles tinham um grande volume de trabalho, eu teria traduções garantidas por um longo período, mas optei por não quebrar o mercado de trabalho por respeito a meus colegas. 

    Mas eis que um anúncio publicado na semana passada no site do Translators Café torna a questão dos baixos valores secundária e me deu arrepios: no anúncio pediam um corretor/revisor para corrigir um texto traduzido automaticamente! Bastante longo até, se não me engano era um texto de aproximadamente 9.000 palavras. Fácil, não é? Coloca-se o texto na tradução automática e depois se pede a um humano para corrigi-lo. Custa muito mais barato e, no final, tem-se a garantia de um trabalho "correto" pois um corretor competente e sério não vai deixar passar os erros que a máquina certamente "cometeu". 

    Há alguns meses escrevi um post sobre a substituição de tradutores humanos por robôs. Alguns comentários diziam que eu era pessimista. O futuro infelizmente já chegou. Mas se encontrarmos um meio de evitar esse tipo de prática, se recusarmos com que façam de nós coadjuvantes, talvez possamos atenuar o estrago. Caros colegas tradutores, revisores e corretores, pensem muito antes de aceitar esse tipo de proposta, não deem sua própria mão à palmatória! Pois aceitar esse tipo de trabalho representa ser conivente com a degradação da nossa profissão, relegar nosso papel ao de figurante. Seria possível instaurar uma convenção internacional para uma ética comum? Sei que seria muito difícil fazê-la ser respeitada, mas ela poderia, ao menos, orientar aqueles que hesitam. Eu voto a favor.  

     

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  • Há alguns dias comecei uma pequena campanha para o ensino da antropologia nas escolas. Solitária, mas cheia de convicção. O momento é oportuno, principalmente aqui na França. Está tendo um debate em torno da ideia do ensino da laicidade e do fato histórico nas escolas. Que disciplina poderia melhor abordar esses temas do que a antropologia? Ora, a principal característica dessa disciplina é a neutralidade, ela não se limita a transmitir o conhecimento, ela também age no olhar que se tem de si, dos outros e consequentemente da sociedade na qual vivemos. 

    Escrevi, então, à Ministra da Educação Nacional. Também enviei minha sugestão a alguns debates em radios francesas. Eu sei, no entanto, que essas cartas ficarão sem resposta, e é por isso que recorro agora a meu blog. Para convidar os que creem, como eu, que a antropologia poderia integrar o programa escolar dos alunos seja no primário ou em outros níveis de ensino, a aderirem a minha campanha. Assim, a laicidade seria ensinada em seu contexto histórico, e o fato religioso em um amplo painel que incluiria também religiões não monoteístas. E as diferenças culturais seriam mostradas como o que são: diferenças no sistema de valores e de pensamento, na visão do mundo, muito além das diferências culinárias ou de vestuário.

    Quando eu exercia a antropologia, fui chamada para intervir em uma associação humanitária que tinha uma missão na qual se misturavam diversas nacionalidades. Havia muitos conflitos pois o problema da interpretação dos comportamentos de uns pelos outros aumentava e atrapalhava o desenvolvimento de seu projeto. Eu preparei então uma conferência com a ajuda de um dos meus incontestados mestres, usei o discurso que Claude Lévi-Strauss fez na sede das Nações Unidas intitulado "Raça e história". Tentei quebrar seus paradigmas, inverter sua visão das coisas, e creio que obtive algum sucesso. Os ouvintes sairam de lá diferentes pois, antes, criticavam através do filtro de sua própria cultura, com um olhar carregado de seus próprios valores e conceitos pré-estabelecidos (ou preconceitos), em outras palavras, julgavam ao invés de tentar compreender. E é essa questão de interpretação errônea que se encontra no âmago dos conflitos interétnicos, sejam de pequena ou de grande escala.

    Não creio, evidentemente, que as coisas vão evoluir em uma boa direção como um toque de mágica, mas estou totalmente convencida que o ensino dessa disciplina nas escolas poderia tornar a vida em sociedade um pouco menos dura, que ela poderia contribuir com uma abertura do olhar de cada um de nós. O credo "diferentes mas iguais" adotaria, com ela, todo o seu sentido.

     

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  • O uso prático da antropologiaQuando eu estudava antropologia ou mesmo depois do fim dos meus estudos, a pergunta mais frequente que me faziam dizia respeito ao seu uso, ou até a sua utilidade. Minha resposta: "voce tem um tempinho?" Ora, o campo de aplicação da antropologia é tão amplo que essa disciplina deveria, na minha opinião, ser ensinada a partir do colégio para uma abordagem global do mundo que nos envolve tendo como perspectiva o respeito do próximo com suas particularidades. E para ficar no pragmatismo économico dominante dos dias de hoje, eis que um artigo publicado na revista francesa l'Obs dessa semana nos fornece um exemplo concreto.

    Esse artigo fala do crescimento da empresa SEB que emprega métodos audaciosos fundados nas inovações tecnológicas do seu centro de pesquisa, baseados, por sua vez, no conhecimento pertinente das particularidades culturais do mercado visado. Uma empresa francesa que vende máquinas para fazer arroz aos chineses, ferros para alisar os cabelos às coreanas, cafeteiras Krups aos alemães e ferros à vapor aos tailandeses, é definitivamente ousado.

    Conquistar mercados tão herméticos, principalmente no que diz respeitos a esses produtos citados, exige um grande poder de força dos centros de inovação técnica, é certo, mas a empresa serviu-se também de pesquisas antropológicas. O chefe de projeto inovação-pesquisa Olivier Wathelet dedicou-se em "observar os gestos dos cozinheiros e os macetes de cozinha, analisar o processo mental que leva a tomar a decisão de realizar ou não uma receita, saber quais são os materias considerados nobres para a cozinha em um ou outro país, como se manipula tais aparelhos, se é melhor manter o barulho do moedor da cafeteira ou o assovio da panela de pressão... pequenas coisas que podem significar a fim de um aparelho se não forem respeitadas" e cujas respostas podem ser dadas somente através de um estudo de campo equipado com as ferramentas da disciplina antropológica. Olivier Wathelet diz que eles estão trabalhando atualmente em uma máquina de fazer massa utilizada na cozinha tradicional chinesa de acordo com uma documentação sobre a preparação desse alimento, suas variantes regionais, colhida em uma volta por todo o país com uma equipe de pesquisadores. A adaptação de um produto calculada conforme as tradições culturais de cada mercado se encontra, assim, no centro da estratégia empresarial, garantindo o sucesso internacional dessa empresa familiar. 

    Já faz muito tempo que a etnologia, a sociologia e a antropologia constituem o objeto de piadas no que diz respeito ao mercado de trabalho, os profissionais dessa área sendo considerados futuros desempregados. Eu diria que esse problema, bem real, que encontramos no mercado de trabalho deve-se a uma certa ignorância do que a antropologia poderia trazer, ou mesmo a arrogância do mundo profissional que até então tentou impor os modelos de consumo ocidentais ao resto do mundo e, por detrás deles, seus próprios valores. Bastará que a estratégia utilizada pela SEB seja conhecida e difundida para que os dados se alterem. O respeito ao próximo com suas particularidades será obtido por razóes financeiras e econômicas. Mesmo se tais razões não são as mais nobres e levando-se em conta o estado atual do mundo, eu as adoto sem escrúpulos. Quando esse dia chegar, espero que todos compreendam enfim o quanto a antropologia pode ser útil.  

     

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  • Português ou brasileiro?Francês do Quebeque, francês da França metropolitana, francês antilhense, francês do norte da Africa, inglês britânico, inglês americano, inglês sul africano, português do Brasil, português europeu, português caboverdiano, e por aí vai. Não sou linguista, mas gostaria de levantar uma discussão sobre uma questão, provavelmente polêmica, com a qual tenho me deparado ultimamente. Como o título desse post indica, ela se refere à distinção entre o português e o brasileiro. 

    Tenho me perguntado a partir de que momento um idioma pode ser considerado autônomo. Quais são os critérios linguísticos, semânticos, culturais ou outros, que determinam que um idioma emancipou-se de sua língua-mãe, que começou a voar com suas próprias asas como um filho que se tornou adulto? O que é necessário para se determinar que uma língua deve tornar-se independente como um Estado que conquistou sua soberania? Não sei se tais critérios são mais ou menos complexos do que àqueles necessários para a construção de uma Nação, mas são garantidamente afetivamente tão dolorosos quanto à insegurança sentida quando se deixa o aconchego de um lar. 

    Que fique bem claro aqui que não estou reivindicando nada, nem defendendo nenhuma posição particular, mas levantando uma questão legítima e com sincera honestidade devido a situações vivenciadas no mercado de trabalho. É certo que deixar a comunidade lusófona seria sem nenhuma dúvida uma verdadeira revolução. Mas o fato é que profissionais sérios da área, agências, editoras ou os próprios clientes diretos que buscam qualidade e precisão têm, cada vez mais, distinguido as duas apelações como se fossem duas línguas distintas. Não sei se o mesmo ocorre com os outros idiomas que conhecem o mesmo percurso, alguém saberia dizer?

    Para ficar dentro do âmbito do meu modesto universo profissional, confesso que não pleiteio para ofertas de emprego pedindo tradutores de Português Europeu, como é comumente chamado. As poucas vezes que a distinção não era explícita, fui gentilmente recusada por ser brasileira. E as poucas vezes que timidamente pensei em fazê-lo fui logo dissuadida por um sentimento de ilegitimidade.  Afinal, não posso afirmar com grande convicção que teria competência para identificar todas as diferenças, sejam elas gramaticais, semânticas ou culturais que distinguem o português do Brasil daquele falado nos outros países lusófonos e, nesse caso particular, em Portugal. Mas elas existem e os que pretendem que essas diferenças são insignificantes revelam, na minha opinião, desconhecimento do fato. Sou ainda menos competente para falar das distinções, diferenças ou variações dos outros idiomas, mas já li em algum artigo que as diferenças entre o português do Brasil e o do Portugal são maiores do que entre o francês do Quebeque e o da França, ou do que entre o americano e o inglês da Inglaterra.

    Gosto de me sentir integrante da comunidade lusófona, sinto-me próxima de seus membros e somente quem já ouviu português em um continente tão exótico como o asiático, sentindo-se acolhida no meio de uma cultura tão diferente da nossa ao chegar em Macau e sentir-se "em casa" pode entender exatamente o que estou dizendo. Mas ao mesmo tempo, já ouvi em Portugal portugueses me dizerem "que eu falava bem o português" como se não fosse minha língua materna. E também já "traduzi", algumas vezes, conversas entre portugueses e brasileiros. Do mesmo modo que já conversei com amigos argentinos ou chilenos sem passar por intérpretes, cada um falando em sua lingua materna. Por essas e outras, por mais polêmica que seja essa questão e por mais que eu, pessoalmente, preferisse permanecer parte integrande dessa grande comunidade, pergunto-me até quando deveremos especificar "português do Brasil" em nossos CV's? 

     

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