• Grandeza e miséria dos tradutores

    Grandeza e miséria dos tradutoresGrandeza e miséria dos tradutores é o título de um artigo publicado na revista francesa Le Nouvel Observateur há duas semanas. Ele transmite alguns dados - contestados por alguns - sobre a profissão de tradutor aqui na França, que achei interessante compartilhar para que pudéssemos utilizá-los, a título comparativo, na avaliação da condição do tradutor no Brasil. Eu, pessoalmente, não tinha elementos para avaliar o texto, mas tomei as informações transmitidas como referências de uma profissão tão vasta e diversificada como a nossa. E acima de tudo, esse artigo tem o grande mérito de chamar a atenção para uma profissão tão pouco conhecida, frequentemente esquecida ou até mesmo negligenciada. Eu me senti um pouco menos sozinha aqui no meu canto... 

    De acordo com o artigo do jornalista Jacques Drillon, oito em cada dez tradutores são na verdade tradutoras; os tradutores técnicos são frequentemente empregados assalariados em empresas ou agências especializadas com uma remuneração que varia de 16.000 a 90.000 euros brutos por ano; os tradutores editoriais são independentes e devem publicar seis ou sete livros aproximadamente por ano para obter uma renda correta; comparativamente, na Alemanha  - segundo o jornalista - um tradutor deve publicar três ou quatro vezes mais para viver de seu trabalho; cada ano 150 profissionais entram no mercado de trabalho na França, dentre os quais 80 traduzem do inglês.

    Ele continua afirmando que nessa profissão "é raro ter regra, a regra é a negociação". E que a remuneração dos tradutores sofreu uma queda de 15 à 30% aqui na França nos últimos 15 anos apesar de uma revalorização calculada por alguns editores de aproximadamente 10%. Essa baixa deve-se principalmente ao modo como o trabalho efetuado é calculado, totalmente transtornada com o surgimento dos computadores como ferramenta de trabalho. Antes, quando datilografava-se na máquina de escrever, a base de cálculo era uma lauda de 25 linhas, o editor contava o número de laudas realizadas para pagar seu tradutor. Com a chegada dos editores de texto e a possibilidade de contar palavras, os editores eliminaram os espaços, o que engendrou uma mudança no cálculo e uma queda considerável no valor final. 

    Fiquei surpresa ao ler que, de acordo com o jornalista, alguns tradutores recebem seu cheque somente depois da publicação do livro e não depois da entrega do trabalho efetuado. Felizmente, pessoalmente, nunca vivenciei tal situação, espero honestamente que não seja uma prática comum.

    Uma informação que gerou polêmica quando publiquei esse post em francês em fóruns de discussão diz respeito ao número de palavras traduzidas em um dia de trabalho. Segundo o jornalista, alguns tradutores traduzem 1000-1500 palavras por hora, outros 200-400, o que representa uma grande disparidade em termos de produtividade. 

    Outra informação surpreendente concerne a correção ou revisão do texto. O jornalista diz que algumas traduções não são relidas por um outro profissional, sendo publicadas diretamente após a tradução. Ele menciona o caso da publicação de "Millênio" que continha centenas de erros grosseiros em sua tradução para o francês. Não li o livro, não tenho elementos para julgar, mas lamento pelo tradutor. Parece-me muito complicado criticar sem conhecer as condições em que tal trabalho foi efetuado, o prazo que lhe foi dado, o que foi negociado enfim. 

    Para terminar o jornalista afirma que o tradutor é um autor, que seu nome deve aparecer na capa ou pelo menos constar em algum lugar do livro, e que ele detém um direito moral inalienável sobre seu trabalho. Será que esse princípio realmente se aplica na prática e de que maneira?

    Dentre as diversas reações a esse artigo, muitos comentaram o número de palavras traduzidas por hora considerando impossível atingir as 1000/1500 informadas; outros tradutores franceses reagiram à questão do "direito moral inalienável" e me informaram que aqui na França os tradutores podem pedir para reler o texto após correção já que é seu trabalho que será lido e é a sua competência que estará em evidência. De um modo geral, houve um consenso sobre a imprecisão dos dados. Em todo caso, as informações transmitidas e as reações provocadas constituem, juntos, elementos instrutivos para compararmos e avaliarmos a condição da nossa profissão no Brasil e em diferentes partes do mundo. 

    Fontes usadas pelo jornalista: "La Condition du traducteur", de Pierre Assouline (CNL, 211) e uma pesquisa realizada em 2010 pelo Sindicato nacional dos Tradutores profissionais.

     Obs: Para os que lêem francês, um tradutor deixou um comentário muito interessante em "Grandeur et misère des traducteurs" aqui mesmo nesse blog.

     

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  • Commentaires

    1
    Vendredi 31 Janvier 2014 à 11:24

    Muito obrigada, Lineimar!

    Gostei muito do texto, achei muito interessante, é bom analisarmos em números o que ocorre no mercado da tradução para que possamos entender como funcionam algumas práticas. O mercado está ficando cada vez mais competitivo e isso acaba refletido nas tarifas. A maioria das traduções são intermediadas por agências que privilegiam preço e prazo em detrimento da qualidade.

    Acho impossível traduzir entre 1000 e 1500 palavras por hora, acho que uma média aceitável para realizar um bom trabalho é entre 400 e 500 palavras, claro que isso varia muito, depende do grau de complexidade do texto.

    Um abraço, bom trabalho e lembranças do Brasil!

    E que as perspectivas sejam mais positivas daqui para a frente.

     

    2
    Fátima
    Samedi 1er Février 2014 à 14:16

    Lineimar,


    Obrigada pelo texto. Moro no Brasil e sou tradutora (inglês e francês). Nunca ouvi falar que o pagamento seria efetuado após a publicação do livro.  Isso é absurdo, pois o processo é bastante demorado.


    Quanto a traduzir entre 1000 e 1500 palavras por hora, acredito que nem sendo um texto muito fácil. Sem querer ser grosseira, daí advém a publicação de textos com tantos erros.


     


    Também acho absurdo que um livro não passe por revisão/copidesque. Somos humanos e sempre deixamos escapar algum errinho, por isso a importância da revisão. Há pouco traduzi um livro complicado do francês para o português e solicitei revisão técnica, pois se tratava de um livro sobre filosofia política e fui atendida. Acho que é interesse de todos: tradutor, editora ter um livro bem feito.


    Abraço e sucesso para nós.


    Fátima

    3
    Jeudi 20 Février 2014 à 14:29

    O reconhecimento social a uma profissão determinada varia de acordo com a sociedade de que se trate e do momento em que se considere; por exemplo, o valor social que se outorga à profissão de médico é bem diferente ao que se lhe concede à profissão de tradutor, quiçá em função de que se percebe maior benefício coletivo na primeira que da segunda.


    A valorização social, não é estática, senão que se vai transformando em função de diferentes fatores, como o grau de conhecimento que se tem da profissão em questão.


    Outro fator que incide ao valorizar uma profissão é a aparição de problemas “novos”, alguns, produto do avanço tecnológico.  


    Cada sociedade valoriza o exercício duma profissão de diferentes maneiras, de acordo com suas necessidades e à época em que se desenvolve.

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