• A particularidade da língua piraha Semana passada assisti a um documentário no canal franco-alemão ARTE extremamente fascinante. Ele continha tanta informação que encontrei uma certa dificuldade em escolher através de que ângulo comentá-lo.

    Ele abordava as particularidades da língua pirahã, falada pelos Pirahãs, um grupo étnico que vive nas bordas do Rio Maici na Amazônia brasileira com nenhum ou pouquíssimo contato com outros grupos étnicos, ainda menos com membros da sociedade nacional de quem têm medo. Ele começa com a experiência do professor Daniel Everett da Universidade de Berkeley, Califórnia, que viveu dez anos com os Pirahãs nos anos 1970, onde fez uma descoberta revolucionária pois ela enternece a teoria do sistema único de linguagem construída pelo grande linguista Noam Chomsky nos anos 1950, até então nunca questionada. Vou tentar resumir aqui algumas das particularidades da língua pirahã que conduziram a tal polêmica:

    A língua pirahã é falada somente pelos aproximadamente 300 Pirahãs que compõem, hoje, essa etnia; os Pirahãs falam somente essa língua; ela pode ser falada, cantada, assuviada ou sussurrada; uma única palavra tem vários significados diferentes, é o ton com a qual ela é pronunciada que distingue o sentido atribuido; ela não possui números ou qualquer sistema de cálculos nem vocabulário para cores mas possui um nome para todas as espécies vegetais e animais da floresta onde vivem, que permite descrever com detalhe as propriedades de cada planta e o modo de vida do menor inseto ou ser vivo ali presente; ela não possui conjunções; uma mesma palavra designa o pai e a mãe, os pirahãs possuem um sistema de parentesco extremamente simples, não havendo vocabulário para designar relações além dos pais e irmãos. E o aspecto mais controverso que gerou a teoria que engendraria a polêmica consiste na constatação de que a língua pirahã não possui passado nem futuro, ela é conjugada somente no presente.

    De acordo com a interpretação desse pesquisador, os Pirahãs vivem absolutamente no presente, eles concentram seu espírito e pensamento em suas necessidades imediatas sem remorsos sobre o passado nem angústias sobre o futuro. Consequentemente essa língua seria não-recursiva. É a impossilidade de recursividade de uma língua que contraria a teoria central de Noam Chomsky totalmente fundada na ideia de uma gramática universal. Para esse linguista, a capacidade linguística da gramática estaria inscrita no genoma humano. Ela seria o componente científico da linguagem. E essa faculdade da linguagem humana se resumiria, por sua vez, na universalidade da recursividade. 

    Ao afirmar que a língua dos Piranhãs não apresenta a possibilidade recursiva, assume-se então que a linguagem não é necessariamente recursiva. Ê a cultura em total simbiose com a natureza e dominada pelo sentimento de felicidade que formata a língua pirahã. O que leva a constatação que a cultura afetaria não somente as palavras mas também a gramática de uma língua. O que, por sua vez, desmente a ideia da universalidade da gramática tal qual ela havia sido até então concebida, que constitui o principal pilar da teoria fundadora de Chomsky.

    Pelo que pude entender no documentário, essa polêmica ainda está no ar pois Everett encontra imensas dificuldades para apresentar o resultado de suas pesquisas no mundo acadêmico. Mas o que me fascinou foi perceber que suas descobertas vão muito além de sua vertente linguística e da polêmica universitária na qual se encontra. Elas atingiram esse pesquisador no seu mais profundo ser. O então missionário Daniel Everett que foi morar na Amazônia para evangelizar os Pirahãs acabou sendo convertido por eles. A perceptível e contagiante felicidade dominante nessa comunidade tornou sua missão inútil e obsoleta pois o que representa a ideia de "um mundo melhor" implícita nas promessas de salvação para um povo que é feliz aqui e agora? A surpreendente consequência dessa experiência transformadora é saber que esse ex-missionário convicto afirma hoje ser ateu. O feiticeiro enfeitiçado.  

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  • Tropeços nos trópicos Tropeços nos trópicos é o título do livro do americano Michael Kepp que reúne algumas de suas crônicas publicadas nós últimos anos na Folha de São Paulo. Além do atraente título, foi o subtítulo do livro que chamou minha atenção: "crônicas de um gringo brasileiro". Nelas, Michael Kepp confessa alguns dos seus pequenos pecados ordinários, muitos deles associados, de uma forma ou de outra, às diferenças culturais vivenciadas por um missouriano no Rio de Janeiro, onde mora há quase trinta anos. E foi justamente o olhar de um americano sobre a minha cidade natal que me interessou particularmente. Intrigou-me saber o que o levou ao lugar que eu mesma deixara vinte anos atrás.

    O livro possui uma linguagem agradável que implica uma proximadade com o leitor, seu autor se desnuda ao contar, inclusive, algumas de suas experiências íntimas. Característica que eu aprecio particularmente pois anos de estudos "científicos" me formataram para fazer exatamente o contrário, ou seja, criar uma distância com o texto para evitar, justamente, que o leitor detecte o ponto de vista pessoal do autor. Apesar de tê-lo comprado para meu marido francês com a esperança de convencê-lo a voltarmos para o Brasil, percebi, ao terminar o livro, que foi um outro aspecto da leitura que me marcou.

    Nesses vinte anos que deixei o Rio tenho tido uma relação estreita com a França e os franceses. Conheço bem o ponto de vista deles sobre o Brasil, suas reações ao visitarem o país, o que eles adoram e o que detestam em nosso comportamento. Através da leitura desse livro, pude constatar, mesmo que superficialmente, que as observações críticas e os afetos de um americano com relação aos brasileiros são muito próximos aos dos franceses.

    O que levou-me à teoria construída por Philippe Nemo sobre a existência de uma cultura ocidental comum (o ocidente ao qual me refiro, aqui, seria a sua noção política e não geográfica). De acordo com esse autor, essa cultura ocidental teria sido estruturada em cinco momentos essenciais que foram: a invenção da ciência pelos gregos, a do direito privado e do humanismo por Roma, a profecia ética e escatológica propagada pela Bíblia, a revolução papal dos séculos XI e XIII e enfim o que conviu-se chamar de "as grandes revoluções democráticas modernas". Esses cinco momentos evolucionários teriam provocado, segundo Nemo, uma mutação sem precedentes nas relações humanas constituindo uma cultura comum às sociedades que foram palco de tais eventos, mesmo que anacronicamente. Essas sociedades são as que compõem a Europa e a América do Norte.

    Embora nós, latino-americanos, sejamos considerados culturalmente próximos do ocidente por termos vivenciado um ou outro dos eventos acima descritos devido, também, ao fato de sermos produto de uma colonização europeia, não somos, contudo, membros integrantes desse grupo. O que engendraria, então, as diferenças culturais entre o norte e o sul, o estranhamento e a atração compartilhada entre americanos e europeus quando encontram-se nos trópicos.

    Claro que esse atalho analítico é superficial e resumido ao extremo. Meu objetivo é abrir uma discussão. Termino, então, esse pequeno post com uma provocação. Quem sabe não cheguemos à irônica conclusão, algum dia, que os franceses e os americanos possuam mais em comum do que sua relação recíproca de amor e ódio gostaria de admitir?... 

    Tropeços nos trópicos - crônicas de um gringo brasileiro, RJ, Editora Record, 2011.

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  • Muitos talvez não saibam, mas nossa profissão é frequentemente subestimada ou mesmo desvalorizada por aqueles que acreditam que falar mais de um idioma é critério suficiente para a realização de uma boa tradução. Participei de muitos fórums de discussão com pessoas de diversas partes do mundo que abordavam esse assunto e pude constatar que esse equívoco é um fenômeno universal. Não vou me aprofundar agora nessa questão mas compartilhar um vídeo que resume e reverte brilhantemente essa visão errônea que infelizmente ainda predomina. Apreciem a fineza com a qual o seu autor, Erik Skuggevik, da Norwegian Association of Literaty Translators, manipula as palavras, as frases, o verbo (produzido por Iver Grimstad): 

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  • Publicação de "O mito da raça pura" no BrasilEm 2007, eu e minha família nos instalamos na Coréia do Sul onde vivemos durante dois anos e meio. Foi minha  primeira experiência asiática.

    Para uma antropóloga como eu, foi uma enorme descoberta, esse país se apresentava como um campo de estudos quase virgem, pois a abertura de suas fronteiras era relativamente recente. Com exceção dos americanos presentes desde o fim da guerra, os coreanos tinham pouco contato com o exterior. Dentre as suas diversas particularidades culturais, uma descoberta chamou muito minha atenção: os coreanos acreditam ser uma raça pura. Sendo oriunda da sociedade brasileira considerada por especialistas a sociedade mestiça por excelência, interessei-me por este aspecto que considero central na sociedade coreana. No momento em que o mundo fervia e vivenciava a criação de novas sociedades através de um processo de mestiçagem cultural, linguístico e étnico, principalmente durante as grandes descobertas marítimas, os coreanos fechavam suas fronteiras e consolidavam uma forte solidariedade interna. Buscando os elementos simbólicos de sua coesão social no mito de origem personificado pela imagem de Tangun, o pai fundador, a crença na pureza de sua raça se consolidou, fazendo-os acreditar que pertencem, todos, a uma mesma linhagem de sangue. Foi essa perspectiva que eu me interessei em verificar, principalmente hoje, quando os membros do antigo Reino Ermita, que se protegeu do contato com o exterior durante séculos, são obrigados a estabelecer relações com os estrangeiros que se instalam, cada vez mais numerosos, em seu próprio território.

    A pesquisa, as observações e as entrevistas realizadas durante esses dois anos gerou um livro que chamei de "O mito da raça pura na Coréia do Sul". É um livro para neófitos, introdutório, sem pretensões, um olhar mais do que um estudo. Eu o havia publicado primeiramente na Coreia em 2009, em francês, e mais tarde o publiquei também aqui na França. Em 2011 decidi traduzi-lo para o português mas sua comercialização era feita através da Amazon sediada na Inglaterra, o que implicava um custo de envio muito alto. Hoje pude, enfim, colocá-lo em um site brasileiro, o Clube dos Autores, a pedido de uma professora da USP que o recomendou a seus alunos.

    Espero que esse pequeno livro possa transportá-los comigo no País das Manhãs Calmas

    https://clubedeautores.com.br/book/150831--O_mito_da_raca_pura

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  • A autopublicaçãoParticipei, recentemente, de um fórum de discussões cujo tema era a autopublicação. Os argumentos dos que se posicionavam contra essa forma de publicação - que devemos às novas tecnologias - parecem-me claros: a qualidade dos textos nem sempre é digna de ser publicada tanto pelo conteúdo quanto pela forma pois na grande maioria dos casos esses autores não contam com revisores e corretores que constituem etapas indispensáveis no processo de publicação de um livro por uma editora. 

    Apesar de ser parte interessada por ter publicado, eu mesma, meus livros, parece-me impossível questionar tais argumentos. É fato que encontramos livros mal escritos e/ou mal formatados e outros cujos temas apresentam um interesse relativo. Ora, seria hipócrita não admitir que o ideal de todo escritor é ver seu trabalho publicado por uma editora reconhecida, em todo caso é o meu, e ter, assim, sua obra devidamente comercializada em livrarias. Contudo, o número cada vez maior de autores e a relevância relativa dos temas propostos fogem ao alcance dos imperativos comerciais das editoras. A autopublicação impõe-se, então, como um excelente meio de divulgação de trabalhos que nunca teriam sido antes publicados. O autor deverá, depois disso, preparar-se para as apreciações do leitores, nem sempre amáveis, pois serão eles os seus críticos diretos. 

    Dentre os diversos argumentos a favor, o que considerei mais interessante e pertinente não encontrava-se na discussão citada mas em um texto escrito por Paulo Coelho em uma edição especial da revista Época em junho de 2012 intitulado "O intelectual está morto, viva o intelectual". Ele afirma que pela primeira vez em nossa história temos acesso irrestrito a bens culturais fazendo com que o autor desconhecido comece a ter a possibilidade "de encontrar o seu lugar ao sol de maneira rápida e efetiva, independentemente do apoio tradicional da mídia". Colocando tal fato em uma edificante perspectiva histórica, ele nos lembra o pouco ou nenhum reconhecimento que certos autores tiveram de críticos literários ou da imprensa em sua época e nos dá alguns exemplos: ao falar de Shakespeare, o crítico literário Lord Byron teria dito que "seu nome é supervalorizado, logo será esquecido", ou citando o jornal Le Figaro em 1857 ao afirmar que "Flaubert não é um escritor" ou ainda o New York Herald Tribune ao comentar o lançamento de O Grande Gatsby afirmando que "esse livro não dura uma temporada". 

    Paulo Coelho termina seu artigo convidando essa nova geração de escritores brasileiros a servirem-se dos novos meios de produção e divulgação que estão a seu alcance sem preocuparem-se em agradar necessariamente aos que ele chama de pseudoeruditos referindo-se aos críticos literários. 

    Ele sabe do que fala. Esse autor, que sempre foi desprezado por críticos literários, é o escritor brasileiro mais traduzido e mais publicado fora do Brasil, muitos dos seus livros obtiveram um enorme sucesso comercial em vários países, em particular aqui na França. Acredito que Erika Leonard James posicionaria-se, também, a favor da autopublicação pois foi assim que o sucesso fenomenal da saga "Cinquenta tons de cinza" - quarenta milhões de exemplares vendidos - começou. 

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