• Qual é a cor do tradutor?

    Qual é a cor do tradutor?A profissão de tradutor apresenta algumas desvantagens bem conhecidas como o isolamento social, uma competitividade crescente e uma certa volatilidade nas relações profissionais. Até agora, sempre disse a mim mesma que essas desvantagens eram compensadas por uma grande vantagem: nossa aparência física não importa. Nosso orçamento para roupas de trabalho é zero, maquiagens e cabelereiros tornaram-se totalmente supérfluos, enfim, não estamos sujeitos à ditadura do "look" como noutras profissões. Melhor ainda, as crises existenciais ligadas à idade devido a um universo profissional no qual uma pessoa de cinquenta anos é substituída por três novatos não nos afetam da mesma forma, pelo contrário, é uma profissão onde se busca experiência. Mas será que isso está se tornando história antiga?

    Há algumas semanas publiquei um post chamado Eu, branca denunciando certas formas sutis de racismo contra os negros no qual eu - ingenuamente, candidamente, estupidamente - defendia uma sociedade mais justa e igualitária. Meu anti-racismo diz respeito a todas as formas de racismo e discriminação. E aquelas que estão atingindo nossa profissão me parecem igualmente incongruentes.

    Dois artigos do jornal Le Monde publicados há poucos dias contam como a tradutora holandesa Marieke Lucas Rijneveld desistiu de traduzir o livro The Hill We Climb, de Amanda Gorman, uma jovem poetisa americana, por ter sofrido muita pressão devido ao fato de ser ... branca. Mas ela não foi a única, um caso semelhante ocorreu na Espanha, onde o tradutor Victor Obiols foi excluído deste mesmo projeto pelos mesmos motivos. O argumento levantado consistia em dizer que, como brancos, eles não podiam se colocar no lugar de uma mulher negra.

    A problemática desta escolha de um tradutor em um catálogo em preto e branco situa-se além do racismo primário: ela questiona a própria essência do trabalho do tradutor e também a do escritor. Será então que vão começar a questionar a personagem de Madame Bovary porque Flaubert era um homem e não conseguia entender os sentimentos de uma mulher? É o próprio Victor Obiols quem melhor nos fala sobre isso: "Se eu não posso traduzir um poetisa porque ela é uma mulher, jovem, negra, americana do século XX, então também não posso traduzir Homero, porque não sou um grego do século VII aC ou não poderia ter traduzido Shakespeare, porque não sou um inglês do século XV ”.

    Esse estranho comportamento ultrapassa o escopo de nossa profissão, todo mundo sabe disso. Mas alguns fatos parecem mais aberrantes do que outros. De acordo com matéria publicada no L'Obs retransmitida pelo Le Figaro e confirmada pela própria autora esta semana na Europa 1, a presidente da União Nacional dos Estudantes da França, Mélanie Luce, organiza reuniões de trabalho às quais é vetada a participação de brancos. Atitude inadmissível para um sindicato que visa "defender os interesses materiais e morais dos estudantes através de missões de informação, defesa e organização de solidariedade [...] no combate à discriminação".

    A missão Perseverance pousou recentemente no planeta Marte. Porém, fico me perguntando se existe vida inteligente no planeta Terra porque, definitivamente, o ser humano não sabe aprender nenhuma lição das tragédias advindas em nossa história.

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