• O que a fala diz

    Todos os que me conhecem sabem da admiração que tenho pela França, país que sonhei e arduamente conquistei. Aqui construí um lar e me sinto plenamente cidadã apesar de ser - e o serei eternamente - estrangeira. Diria até que reivindico meu estrangeirismo. Minha cultura brasileira está nas minhas tripas e se manifesta no modo distanciado que tenho de observar a cultura francesa, embora não somente, pois acho que faço isso em todos os lugares onde vou. Talvez seja, como diz meu marido, uma deformação profissional, considerando minha formação em antropologia: essa disciplina é um modo de ver a vida, de observar as culturas, de analisar as condutas sem julgar - condição sine qua non para um diagnóstico isento de preconceitos, tão em vogas nos dias de hoje.

    Esse parágrafo introdutório vem, na verdade, colocar as marcas do que gostaria de dizer sobre meus compatriotas desse lado do Atlântico. Porque apesar dos mais de vinte anos morando aqui, convivendo com eles, casada com um deles e mãe de um francesinho, algumas atitudes ainda me interpelam. Dentre elas, a excessiva formalidade que predomina nas relações sociais, por mais amigáveis que sejam. Apesar de respeitar essa característica dominante, ela me frustra e me reprime. Então eu me pergunto... seria possível haver uma sociedade organizada como a sociedade francesa sem essa formalidade extrema? Pois esse aspecto seria a expressão última da famosa frase atribuída ao inglês Herbert Spencer ao afirmar que "a liberdade de um termina onde começa a liberdade de outro", leitmotiv organizador do "viver junto" na França. Ela representa o autocontrole pelo respeito do espaço do outro, ou o domínio das paixões que se encontra no centro da filosofia cartesiana tão característica da cultura francesa.

    Nesse ímpeto, eu diria que algumas expressões linguísticas me parecem reveladoras dessa cultura. Em todas as culturas, a fala diz muito. Como exemplo dessa minha afirmação, eu colocaria a expressão que se usa para traduzir a nossa "gargalhada". Em francês se diz "fou rire", literalmente "riso louco". Só loucos riem alto, dão risadas barulhentas, daquelas que vêm do fundo da alma. A gargalhada deve representar, aqui, a falta do autocontrole, de comedimento, de contenção. Não se gargalha em público, e talvez - quem sabe? - nem mesmo no universo privado da casa, dos amigos. A gargalhada é a anti-moderação por excelência, essa moderação tão racional, cara aos meus amados compatriotas.

    Lembro-me bem de um dos primeiros choques culturais vivenciados. Foi quando dei uma daquelas boas gargalhadas, altas e liberadoras. Tão gostosas. Pergutaram-me quantas cervejas eu tinha tomado. Mal sabem eles. Eu deixava transparecer ali meu descontrole, o extrapolamento de um sentimento. Desde então, a manifestação da minha doce loucura está reservada somente aos íntimos que, como eu, se esforçam para não julgar.

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