• Tradutores versus corretores

    Tradutores versus corretoresO título desse post é enganador: ele não corresponde ao que penso, mas ao que tenho constatado nas relações entre tradutores e corretores recentemente. Talvez essa relação tenha sempre sido ambígua, mas tenho a impressão que as coisas estão se degradando.

    Primeiramente, devo esclarecer que nunca poderia me posicionar contra os corretores, pois corrigir é parte de minhas atribuições. Nosso trabalho é solitário, mas sempre o vi como um trabalho de equipe, seja quando trabalho para editoras, meus empregadores preferidos, ou para agências. Sei que minha tradução será relida e corrigida, e sinto-me confortável com essa ideia. Ou melhor, sentia-me, porque estou começando a temer a falta de objetividade de alguns de meus homólogos.

    Admito as fraquezas humanas, mas a má-fé não integra a lista dos meus defeitos. Quando corrijo a tradução de um colega, procuro os erros – e somente eles, tomando cuidado para não julgar suas escolhas. É um excelente exercício de autocontrole. Conheço os riscos que corro, mas nunca me permitiria dizer que uma boa tradução é ruim por medo de perder um trabalho ou um cliente, senão nunca mais conseguiria me olhar no espelho. Infelizmente fui vítima de uma corretora que não era muito... digamos... objetiva quando fiz um teste para uma agência.

    Não quero vangloriar minhas qualidades e competências, mas minha experiência é um fato inegável. O teste era muito simples, constituído de palavras corriqueiras, principalmente para alguém que já traduziu Paul Veyne e Claude Lévi-Strauss, autores complexos. Eu o fiz com toda a atenção com a qual faço todos os meus trabalhos, sejam eles  “eruditos” ou ordinários. Fiquei surpresa quando recebi o resultado negativo da agência dizendo que a corretora havia encontrado muitos erros e que, consequentemente, uma futura colaboração não seria possível.

    Eu evidentemente pedi a correção para verificar quais eram esses erros. A corretora simplesmente decidiu substituir uma dezena de palavras por sinônimos que talvez ela considerasse mais bonitos, divertidos, interessantes, apropriados ou seja lá por que razão. Ora, a escolha das palavras, se elas refletem o sentido do que o autor quis expressar, deve ser uma prerrogativa do tradutor. Ela substituiu palavras por outras com o mesmo significado, sem nenhuma consideração pelas possíveis consequências que o profissional por trás daquela tradução sofreria. E como ninguém na agência falava português, o grande número de “erros” me foi fatal. Senti-me impotente e fiquei extremamente contrariada. 

    Já tinha lido algumas discussões sobre esse assunto nos fóruns do Linkedin. Adoro minha profissão, mas ela tem me deixado triste ultimamente. Posso suportar a competitividade do mercado se usarmos todos as mesmas armas, mas tenho muita dificuldade em lidar com a desonestidade. 

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  • Commentaires

    1
    Mardi 17 Janvier à 20:19
    Melissa Harkin

    Excelente post! Infelizmente, é muito comum nossos pares alteraram questões de estilo e escolha. Também foco em corrigir erros ou inadequações culturais e de tom de voz nativo.

      • Lineimar
        Mercredi 18 Janvier à 18:59
        Obrigada Melissa, exercer uma profissão não regulamentada é realmente complicado. Só nos resta a consciência ética de cada um, não é?
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