Dentre os livros que tive o prazer de traduzir, a obra-prima de Paul Veyne, “Pão e Circo. Sociologia histórica de um pluralismo político”, foi definitivamente o que me deu mais trabalho. Seu autor analisa brilhantemente o evergetismo helenístico e romano, bem como a lógica por trás do comportamento dos evérgetas. A editora Editora Unesp, que publicou o livro no Brasil, disse-me para pensar bem, pois seria um trabalho árduo e meticuloso. Ela não exagerou nem um pouco.
Já em 1977, o jornalista Pierre Sipriot revela parcialmente a complexidade deste livro ao entrevistar Paul Veyne no período de seu lançamento na França: “Ao longo de 800 páginas, você destaca o papel de um personagem que nunca foi nomeado, o evérgeta. Por mais que procuremos este termo no Petit Larousse, não o encontramos. Como conseguiu escrever 800 páginas sobre uma personagem que, até então, não tinha nome?”
Embora esse termo tenha sido introduzido em diversos dicionários desde então, eu não sabia, naquela época, o que significava. O trabalho prévio à tradução foi, assim, extremamente laborioso. Depois de ter lido e aprendido o que era o evergetismo, comecei uma corrida contra o tempo para traduzir as 350 mil palavras que compõem a obra em oito meses, trabalhando oito horas por dia, sete dias por semana. Pois além da palavra “evergetismo”, central e onipresente, outros termos, nunca traduzidos, surgiam com frequência no texto e alguns dos quais exigiram horas de pesquisa e reflexão.
A erudição deste texto levou-me a dialogar com autores que eu conhecia sem realmente conhecer os seus escritos, como Aristóteles, Tito Lívio e Cícero, e outros com os quais já tinha trabalhado, como Marcel Mauss, Max Weber ou Georges Dumézil, proporcionando-me assim alguns momentos de trégua.
Hoje, passados mais de dez anos, lembro-me com muito carinho desse ano que passei com Paul Veyne e também com orgulho por ter traduzido um livro complexo que me ensinou muito sobre um tema que fundamenta a civilização ocidental.