Quando a cantora Rita Lee foi convidada para posar nua para a revista Playboy no auge de sua carreira, ela respondeu que, para ela, a nudez significaria posar vestida, mas sem seus óculos e sua icônica franja. Eram os óculos e a franja que representavam, para ela, uma forma de barreira pudica sem a qual ela se sentiria exposta. A revista Playboy não deu continuidade ao convite.
Recentemente, visitei algumas escolas de idiomas em Estrasburgo para apresentar meus livros para o ensino de português como língua estrangeira. De acordo com o nível da turma, fiz a apresentação em francês ou em português.
Sou muito tímida e falar em público é um grande esforço para mim, que está piorando com o tempo. Talvez pelo fato de eu levar uma vida solitária? Ou por que meu trabalho me obriga a buscar recursos no interior de mim mesma para escrever e traduzir, fechando ainda mais o cerco?
Quaisquer que sejam as razões, percebi que me sentia mais vulnerável quando falava em português e, ao contrário, mais serena quando falava em francês. Essa observação me fez pensar em minha defesa de tese, que defendi alternadamente nesses dois idiomas, meus companheiros mais fiéis. No fim da defesa, meu orientador me disse, com um sorrisinho no rosto, que eu parecia mais à vontade quando falava em francês.
Esta conversa com meu professor me surpreendeu na época, vinte e cinco anos atrás. Tive a impressão de confirmar, hoje, suas observações.
Esse vai-e-vem entre dois idiomas e universos de valores tornou-se parte integrante do meu ser, como mencionei em um post publicado neste blog. As pessoas que moram em um país que não é o país de sua infância vivem em uma dualidade eterna, e não há como voltar atrás.
O francês não é o idioma da minha infância, eu o falo com um forte sotaque carioca e às vezes tropeço. Por que, então, sinto-me mais segura falando francês em público? Levantei duas hipóteses:
A primeira, o francês funcionaria como um escudo mostrando apenas o meu eu construído. O processo é racional e reflexivo, e embora eu ame esse idioma com todo o meu ser, ele se desenvolve no cérebro. Sinto-me vestida, como a franja da Rita Lee. É como se eu não estivesse expondo minha verdadeira natureza (se é que isso existe). Escondo-me por trás dos preconceitos que navegam em torno de uma pessoa que se expressa em uma língua que não é sua língua materna, como uma desculpa prévia para o meu desconforto. Já o português não é tão articulado, ele vem mais espontaneamente das minhas entranhas e me revela. O português é o meu eu desprotegido e sem artifícios: sinto-me nua diante do olhar do outro.
A segunda é mais profunda no subconsciente. Que meus compatriotas brasileiros me perdoem, mas na França eu me sinto segura, serena e em paz. Ela foi meu refúgio quando fugi de um país onde não encontrei o meu lugar ao sol. Tenho uma relação ambígua com o Brasil, de amor e ódio: um grande amor apaixonado pela maravilhosa cultura brasileira, mestiça e antropofágica, que devora o que vem de alhures e o assimila, transformando o estranho em novo, em música e em poesia; ódio da corrupção estrutural, latente e onipresente, e de valores que desprezam os necessitados triturando os mais carentes nos moinhos da vida.
Seria a linguagem o vetor desse subconsciente trazendo-o à tona? E se fosse a fala, e não os olhos, o espelho da alma?