• Você é fontista ou alvista?

    E você, é um "fontista" ou um "alvista"?O título desse post é a tradução literária do artigo francês que publiquei aqui há alguns dias. Esse artigo se inscreve na continuidade do programa de rádio "Les nouveaux chemins de la connaissance" sobre o qual falei no meu post precedente. Hoje farei um resumo da entrevista com o tradutor, filósofo e tradutólogo Jean-René Ladmiral realizada no dia 19 de março pela filósofa e jornalista Adèle Van Reeth. Nessa conversa podemos identificar facilmente a tradução observada, pensada e analisada por um filósofo. Seria isso o objeto da tradutologia?

    Ladmiral começa a entrevista dizendo que a tradução é acessoriamente uma questão de línguas. Traduzimos obras e textos e por detrás dos textos, encontra-se o projeto do pensamento, da escritura que supostamente devemos revelar. A pluralidade do pensamento, do que é vivenciado, do ser-no-mundo é múltiplo: existem culturas, indivíduos, épocas históricas e a língua, que é um ser-no-mundo cognitivo como qualquer outro. 

    Segundo esse autor, deve-se relativizar a importância da língua na tradução. Ele nos diz que no Institut de management et de communication interculturels de Paris, onde ensina, é feito em um primeiro momento um trabalho de interpretação francês-francês que vai de encontro à ideia de transcodificação que consistiria em substituir uma palavra por outra. O objetivo sendo o de identificar o conteúdo e a possibilidade de reformulá-lo. Em resumo, traduzir é fazer viver outra vez.

    Ele considera a tentação literalista uma regressão. As línguas possuem uma existência concreta, não se deve reduzir a tradução a um problema de falta ou de excesso de símbolos, não se traduz uma língua, mas uma mensagem, uma obra, um projeto; ao mesmo tempo, a língua é o que resiste. A textura da língua se perde em uma tradução.

    Esse autor distingue, então, duas correntes de tradutores, ou seja, os fontistas, que se concentram no significante (a língua fonte) e os alvistas que se concentram nos efeitos (a língua alvo). Ele estima que seu trabalho seria o de um alvista pois acredita que não se traduz o significante, mas o sentido, um efeito estético, semiótico, literário e cômico, o trabalho de um tradutor sendo uma espécie de restituição. Ora, segundo ele, a lógica dos fontistas consiste em repetir o texto original. Para ele, o original deve ser o objeto de um luto, deve desaparecer sob a tradução.

    Segundo ele, todos os argumentos contra a tradução se resumem em um único: ela não é o original. A tradução seria então como um amigo que perdeu a mulher amada; alguém lhe apresenta uma outra mulher que tem o mesmo nome, a mesma idade, mas não é a mulher amada. 

    Para Ladmiral, na tradução deve haver dois lutos: o do original e de um certo número de coisas que nunca passarão que se referem à singularidade da obra. A tradução seria, assim, como uma profanação.

    Esse resumo aqui apresentado seria o essencial, evidentemente a entrevista foi mais rica e dinâmica, eles inclusive falaram sobre a tradução da Bíblia, mas infelizmente não consegui resumir pertinentemente as ideias transmitidas sobre o assunto. Mais uma vez, o assunto é polêmico e levantou discussões interessantes quando o publiquei em francês. Nessas discussões chegamos, juntos, à conclusão que na prática fazemos um "malabarismo" entre uma tentativa de fidelidade do texto fonte e a necessidade de nos afastarmos dele de vez em quando para tornar o texto compreensível para a cultura de destino. Pessoalmente, eu não conhecia essa linha de pensamento, não posso afirmar se é ou não conhecida no Brasil. Uma razão a mais para compartilhar o conteúdo da entrevista com o grupo.

    Bibliographie :

    José Ortega y Gasset, Misère et splendeur de la traduction, Les Belles lettres, 2013.

    Jean-René Ladmiral, Sourcier ou cibliste, Les Belles lettres, 2014.

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  • Commentaires

    1
    Vendredi 2 Mai 2014 à 20:25

    Olá, Lineimar!

    Ótimo texto! é interessante ver como os filosófos enxergam a tradução. O eterno conflito do tradutor entre ser fiel ao texto fonte ou à língua-alvo. As teorias modernas defendem a morte do autor, o texto como algo inacabado e em construção, a autonomia e autossuficiência do texto literário...

    Eu acho que tudo o que é radical demais acaba sendo reducionista. Acho que os textos tem funções e características diferentes e não devem ser traduzidos sob uma perspectiva única. Os textos técnicos têm caráter instrutivo e, nesse caso, acredito que se deva privilegiar a língua alvo.

    Por outro lado, os textos literários são criação artística, uma expressão particular que produz um efeito estético em que as palavras escapam ao sentido literal, então, nesse caso, concordo com o que diz o tradutor Paulo Henriques Britto: Ao traduzir uma obra literária de um autor como Dostoiévski, por exemplo, o tradutor deve ser o mais fiel possível ao texto original, de forma que o leitor que leia essa tradução possa afirmar que leu Dostoiévski sem estar mentindo.

    Um abraço!

    2
    marilda
    Samedi 3 Mai 2014 à 02:13

    Prezada Lineimar,

    Considero extremamente interessante a informação que nos prestou e concordo plenamente com a Diana Margarita quando diz que cada texto tem sua função, o texto técnico exige um procedimento diferente do literário, como você citou com muita sabedoria "na prática fazemos um "malabarismo" entre uma tentativa de fidelidade do texto fonte e a necessidade de nos afastarmos dele de vez em quando para tornar o texto compreensível para a cultura de destino".  Um grande abraço

    3
    Marcia Torres
    Samedi 3 Mai 2014 à 15:37

    Muito lúcida a análise. Obrigada por partilhar.

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