• Um bom linguista

    O bom linguista Há alguns meses havia escrito sobre a vulnerável relação existente entre tradutores e corretores em um artigo que intitulei "Tradutores versus corretores". Apesar de tê-lo chamado assim, não penso hoje, e nunca pensei, que devesse haver qualquer conflito e competição entre tradutores e corretores que trabalham num projeto comum. O objetivo final deveria ser um só: entregar um trabalho bem feito. Mesmo porque, muitos de nós somos alternativamente tradutores e corretores. No artigo mencionado, comentei um fato ocorrido que me deixou destabilizada ao ter sido reprovada num teste que fiz para uma agência. Não me acho infalível, ao contrário, verifico constantemente palavras cujo significado me deixam dubitativa, procuro sinônimos mais sofisticados ou mais familiares de palavras que conheço bem para melhor adaptá-las ao contexto do texto de origem. Esse teste em questão não apresentava nenhuma dificuldade, era um pequeno parágrafo que falava da França, país onde moro há mais de vinte anos, e cujo idioma estudo há mais de 30. Para quem já traduziu textos complexos como os de Lévi-Strauss, Paul Veyne ou Pascal Picq, estava tranquila quanto ao resultado. Porém, não esperava que o(a) corretor(a) trocasse dezenas de palavras por sinônimos, alguns até com sentido menos adequado que aqueles que eu havia escolhido. 

    Talvez essa pessoa tivesse seguido à risca as orientações de gerentes de projeto que pedem para "trocar seis por meia dúzia para mostrar trabalho". Já ouvi essa frase, mas recusei-me a aplicá-la: corrijo erros e não escolhas. Essas últimas, pelo que me consta, são prerrogativas do tradutor. E não vou nunca, em minha sã consciência, procurar erros que não existem. Jamais conseguiria dormir sabendo que prejudiquei voluntariamente um colega competente. 

    Mas hoje venho colocar um fato contrário ao que expus em meu artigo: quando o tradutor é suscetível e tem dificuldade em aceitar determinadas correções. Colocam-se na defensiva e muitas vezes, talvez por orgulho, ficam zangados com o corretor mesmo quando a correção é justificada. Essa suscetibilidade de alguns colegas podem ser perigosas, pois podem gerar uma animosidade que poderia se manifestar numa correção "maliciosa" posteriormente e resultados falseados.

    Essas colocações me fizeram pensar no relacionamento que estabeleci com uma colega recentemente. Trabalhamos juntas para uma mesma agência há alguns anos. Geralmente eu corrijo suas ótimas traduções, mas uma vez invertemos nossos papeis. Essa agência permite que releiamos nosso trabalho corrigido. Achei a correção dela excelente e aprendi muito, inclusive coisas que aplico até hoje. Fiquei tão grata com o que aprendi que lhe enviei uma mensagem agradecendo pela correção que ela havia feito. Ela me respondeu com uma mensagem amigável, um tanto surpresa, dizendo que aquela era a primeira vez que alguém lhe agradecia por uma correção. 

    Numa profissão tão "solta" como a nossa, em que nossa reputação e o consequente volume de trabalho muitas vezes depende de apreciações de terceiros dos quais nada sabemos, pergunto-me como medir a competência de um profissional sem conhecer o caráter de quem o julga? Essa questão me parece ser central para o trabalho dos gerentes de projeto que evidentemente não dominam todas as mais de 3.000 línguas faladas no mundo, e não têm outra escolha senão confiar em seus parceiros e prestadores de serviço. A honestidade se impõe, assim, como um critério sine qua non na configuração de "um bom linguista". O mais difícil é encontrar um meio de identificá-la. 

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