• Tropeços nos trópicos

    Tropeços nos trópicos Tropeços nos trópicos é o título do livro do americano Michael Kepp que reúne algumas de suas crônicas publicadas nós últimos anos na Folha de São Paulo. Além do atraente título, foi o subtítulo do livro que chamou minha atenção: "crônicas de um gringo brasileiro". Nelas, Michael Kepp confessa alguns dos seus pequenos pecados ordinários, muitos deles associados, de uma forma ou de outra, às diferenças culturais vivenciadas por um missouriano no Rio de Janeiro, onde mora há quase trinta anos. E foi justamente o olhar de um americano sobre a minha cidade natal que me interessou particularmente. Intrigou-me saber o que o levou ao lugar que eu mesma deixara vinte anos atrás.

    O livro possui uma linguagem agradável que implica uma proximadade com o leitor, seu autor se desnuda ao contar, inclusive, algumas de suas experiências íntimas. Característica que eu aprecio particularmente pois anos de estudos "científicos" me formataram para fazer exatamente o contrário, ou seja, criar uma distância com o texto para evitar, justamente, que o leitor detecte o ponto de vista pessoal do autor. Apesar de tê-lo comprado para meu marido francês com a esperança de convencê-lo a voltarmos para o Brasil, percebi, ao terminar o livro, que foi um outro aspecto da leitura que me marcou.

    Nesses vinte anos que deixei o Rio tenho tido uma relação estreita com a França e os franceses. Conheço bem o ponto de vista deles sobre o Brasil, suas reações ao visitarem o país, o que eles adoram e o que detestam em nosso comportamento. Através da leitura desse livro, pude constatar, mesmo que superficialmente, que as observações críticas e os afetos de um americano com relação aos brasileiros são muito próximos aos dos franceses.

    O que levou-me à teoria construída por Philippe Nemo sobre a existência de uma cultura ocidental comum (o ocidente ao qual me refiro, aqui, seria a sua noção política e não geográfica). De acordo com esse autor, essa cultura ocidental teria sido estruturada em cinco momentos essenciais que foram: a invenção da ciência pelos gregos, a do direito privado e do humanismo por Roma, a profecia ética e escatológica propagada pela Bíblia, a revolução papal dos séculos XI e XIII e enfim o que conviu-se chamar de "as grandes revoluções democráticas modernas". Esses cinco momentos evolucionários teriam provocado, segundo Nemo, uma mutação sem precedentes nas relações humanas constituindo uma cultura comum às sociedades que foram palco de tais eventos, mesmo que anacronicamente. Essas sociedades são as que compõem a Europa e a América do Norte.

    Embora nós, latino-americanos, sejamos considerados culturalmente próximos do ocidente por termos vivenciado um ou outro dos eventos acima descritos devido, também, ao fato de sermos produto de uma colonização europeia, não somos, contudo, membros integrantes desse grupo. O que engendraria, então, as diferenças culturais entre o norte e o sul, o estranhamento e a atração compartilhada entre americanos e europeus quando encontram-se nos trópicos.

    Claro que esse atalho analítico é superficial e resumido ao extremo. Meu objetivo é abrir uma discussão. Termino, então, esse pequeno post com uma provocação. Quem sabe não cheguemos à irônica conclusão, algum dia, que os franceses e os americanos possuam mais em comum do que sua relação recíproca de amor e ódio gostaria de admitir?... 

    Tropeços nos trópicos - crônicas de um gringo brasileiro, RJ, Editora Record, 2011.

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