• O sexismo em seu paroxismo

    O sexismo em seu paroxismoQuem nunca disse, em brigas apaixonadas com seus cônjugues, que homens e mulheres não falam a mesma língua, que jogue a primeira pedra. Não será o escritor John Gray, autor do livro "Os Homens são de marte e as mulheres de vênus", que me contradirá. Se esta frase foi um dia banal e insignificante, ela hoje se tornou polêmica, pois a diferença "natural" entre homens e mulheres é questionada pela teoria do gênero que considera que a distinção entre os dois sexos é uma construção social. Conceito em voga nos dias de hoje, que não é, contudo, nenhuma novidade, pois já em 1949 Simone de Beauvoir abordou esse tema em seu livro "O Segundo sexo" no qual afirma que "não se nasce mulher, torna-se". Se naquela época seu livro foi muito contestado, a teoria do gênero é hoje ensinada em algumas escolas em diversos países ocidentais.

    Mas eis que ontem, meu colega e amigo Omar me passou uma reportagem da BBC cujo tema me interessa, como ele faz sempre, que fala de uma sociedade onde o sexismo é assumido, revindicado sem complexo, e na qual os homens e as mulheres literalmente não falam a mesma língua: a distinção sexual nos Ubang do Nigéria se inscreve em sua própria língua pois, nesse grupo, os homens e as mulheres falam duas línguas diferentes. Que eu saiba, esse grupo étnico ancestral é o único a apresentar essa particularidade. 

    Os Ubang se dizem descendentes diretos de Adão e Eva, afirmando que essa distinção linguística obedece à vontade de Deus. Quais seriam, então, as implicações socioculturais dessa separação? Não sei se esse fenômeno foi objeto de estudos linguísticos, antropológicos ou de qualquer outra área. Desculpem-me por minha leviandade. Pelo que pude entender, os meninos e as meninas falam a mesma língua durante a infância, a língua da mãe, até completarem 10 anos, quando os meninos devem começar a falar a língua de seus pais. Ninguém lhes diz quando essa mudança deve ser feita, é justamente o sentimento de não estar falando mais a língua "certa" que revela sua maturidade. Essa última é atingida quando o menino domina a língua masculina, seu rito de passagem à idade adulta. Se sua linguagem não mudar até uma certa idade, ele é considerado "anormal" pelo grupo.

    As coisas se tornaram mais claras em meu esquema analítico, quando aprendi que as mulheres são proibidas de falar a língua dos homens. Assim, a comunicação para as mulheres dentro do grupo é restrita, pois sua iniciativa de comunicabilidade é reduzida às crianças, encontrando-se, assim, num papel passivo e, consequentemente, submissas ao benquerer masculino, que, por sua vez, podem comunicar livremente com qualquer membro do grupo.

    Mesmo que não esteja explícito na reportagem, parece-me claro que as mulheres Ubang não são espontaneamente ouvidas, compreendidas e não impõem voluntariamente sua voz. Se analisarmos friamente, não faz muito tempo, na história de longa duração, que as mulheres oriundas das sociedades ocidentais distinguem-se das mulheres Ubang nesse quesito. Recentemente o movimento #metoo veio denunciar as (numerosas) discriminações das quais as mulheres são vítimas, que vão muito além do assédio sexual, e conduzir uma ação contra as distinções no tratamento dado aos dois sexos - no qual a mulher é amplamente desfavorecida - nas sociedades ocidentais: diferenças salariais, dificuldade de acesso aos cargos de direção, baixa representatividade política, entre muitos outros. Enquanto o chefe Ubang afirma que, apesar dessa distinção linguística, esse grupo étnico se encontra entre os mais pacíficos do planeta, desse lado aqui do mundo o combate já começou.

    The Village where men and women speak different languages

     

     

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