• Estranha proposta de trabalho

    Drôle de propositionDe acordo com as estatísticas publicadas aqui e lá, o volume de trabalho de tradução mundial nunca esteve tão alto. Confesso, contudo, que algumas práticas me deixam cética quanto ao futuro próximo da nossa profissão. E também perplexa.

    Primeiramente, tem a questão dos valores propostos aos tradutores que se tornaram absurdos. Aproveito, inclusive, desse momento solene para fazer meu mea culpa e contar uma curta mas edificante experiência: aceitei um trabalho pago bem abaixo do meu custo habitual e ainda hoje me pergunto porquê. Na verdade, eu sei quais foram as razões que me levaram a esse ato: um momento de fraqueza, de vazio e de incompreensão diante do silêncio angustiante de agências e clientes a quem eu havia enviado meu Curriculum ou feito um teste. Quando eu comecei a duvidar de minhas competências, fiz a pergunta diretamente à responsável de uma agência. O problema era efetivamente o custo. Com uma mistura de alívio (não era por um problema de competência) e decepção, quis ir mais fundo nessa troca e aceitei os valores propostos, para entender como tudo isso funciona. A agência em questão era profissional, o trabalho simpático e até interessante, mas quando terminei a missão eu coloquei um ponto final também em nossa colaboração explicando que eu não poderia continuar com tais valores, pois estaria prejudicando a profissão. Claro que a sensação foi desagradável, afinal eles tinham um grande volume de trabalho, eu teria traduções garantidas por um longo período, mas optei por não quebrar o mercado de trabalho por respeito a meus colegas. 

    Mas eis que um anúncio publicado na semana passada no site do Translators Café torna a questão dos baixos valores secundária e me deu arrepios: no anúncio pediam um corretor/revisor para corrigir um texto traduzido automaticamente! Bastante longo até, se não me engano era um texto de aproximadamente 9.000 palavras. Fácil, não é? Coloca-se o texto na tradução automática e depois se pede a um humano para corrigi-lo. Custa muito mais barato e, no final, tem-se a garantia de um trabalho "correto" pois um corretor competente e sério não vai deixar passar os erros que a máquina certamente "cometeu". 

    Há alguns meses escrevi um post sobre a substituição de tradutores humanos por robôs. Alguns comentários diziam que eu era pessimista. O futuro infelizmente já chegou. Mas se encontrarmos um meio de evitar esse tipo de prática, se recusarmos com que façam de nós coadjuvantes, talvez possamos atenuar o estrago. Caros colegas tradutores, revisores e corretores, pensem muito antes de aceitar esse tipo de proposta, não deem sua própria mão à palmatória! Pois aceitar esse tipo de trabalho representa ser conivente com a degradação da nossa profissão, relegar nosso papel ao de figurante. Seria possível instaurar uma convenção internacional para uma ética comum? Sei que seria muito difícil fazê-la ser respeitada, mas ela poderia, ao menos, orientar aqueles que hesitam. Eu voto a favor.  

     

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  • Commentaires

    1
    Rosa
    Mercredi 4 Février 2015 à 16:44
    Rosa

    Concordo plenamente com você. Desisti da profissão por encontrar pessoas (em resposta a uma proposta de trabalho!) que faziam tradução até de graça!

    Amo traduzir, mas não posso aceitar preços como os do mercado (a que tive acesso) para um trabalho que faço com tanto amor. 

    Uma pena. 

    Abraço!

    2
    Mercredi 4 Février 2015 à 17:03

    Olá Rosa,


    Obrigada por seu comentário. Confesso que ando muito desanimada, mas ainda não quero desistir. Tenho a sorte de trabalhar para uma editora, e é no trabalho que faço para ela que encontro uma grande satisfação e sou tratada com respeito.


    Mas enquanto alguns dentre nós aceitarem qualquer coisa a qualquer preço, creio que a tendência é a desvalorização da profissão. Uma pena mesmo.


    Um abraço


    Lineimar

    3
    Laura
    Jeudi 5 Février 2015 à 19:44

    Olá, Lineimar!


     


    Tudo bom?


    Obrigada pelo seu artigo! Entendo a sua frustração, com a qual convivi durante alguns anos, por ter sido "coadjuvante" desse sistema, até eu entender que a culpa não é das agências ou dos clientes (afinal, cada um precisa ver o seu lado, não é?), mas sim, a nossa. Se não defendermos os nossos interesses, ninguém o fará. De fato, acredito (agora mais do que nunca) que precisamos ter mais respeito pelo nosso trabalho, pela nossa profissão e pelos nossos colegas. Nunca é tarde para acordar!


    Abraço,


    Laura

    4
    Vendredi 6 Février 2015 à 08:26

    Bom dia Laura,

     

    Também acho que enquanto aceitarem tarifas vergonhosas e propostas desse tipo, agências e clientes continuarão nessa lógica e tentarão cada vez mais baixar preços e diminuir custos. A grande dificuldade da nossa profissão é essa falta de regulação e as diferenças de custo de vida nos diferentes países do mundo. Os tradutores dos países nórdicos não poderiam viver com o que se paga em países do hemisférios sul, e por outro lado tradutores do sul não poderiam cobrar o que os tradutores nórdicos cobram. Como conciliar isso tudo, eis uma grande questão. Mas há, porém, uma ética que deveria ser universal, a do respeito pelo trabalho realizado.

    Obrigada pelo seu comentário.

     

    Um abraço

     

    Lineimar

    5
    Roberto Seabra
    Samedi 7 Février 2015 à 21:19

    Infelizmente esse mercado de traduções muito baratas com a promessa de muito trabalho só conduz ao empobrecimento da classe dos tradutores e faz com que todos fiquem cada vez mais desmotivados.

    Considero um absurdo deixar o cliente colocar preço no meu serviço e fazer uma revisão com um texto inicial muito pobre dá um trabalho muito forte, gasta-se muito mais horas do que seria razoável e ainda se corre o risco do resultado final ficar abaixo do desejado.

    As empresas de serviço promovem muito turnover hoje em dia visando redução de custos e os tradutores conceituados devem ficar fora desse mercado de fazer traduções a qualquer preço.

    Se como profissionais não nos valorizarmos, quem fará isso por nós?

    Abraços,

    Roberto Seabra da Costa

     

     

     

    6
    Dimanche 8 Février 2015 à 11:41

    É isso mesmo, Roberto. Concordo em número, gênero e grau. 

    Obrigada por sua visita ao meu blog e por seu comentário.

    Um abraço

    Lineimar

    7
    Roberto Seabra
    Dimanche 8 Février 2015 à 11:52

    "Resistire 
    para seguir viviendo 
    me volvere de hierro para endurecer la piel 
    y aunque los vientos de la vida soplen fuerte 
    soy como el junco que se dobla pero siempre sigue en pie 

    Resistire 
    para seguir viviendo 
    recorrere los mares y jamas me vencere 
    y aunque los sueños se me rompan en pedazos 
    yo resistire, resistire 
    yo resistire" 

    Toño Rosario - Resistiré

    8
    Mercredi 18 Février 2015 à 14:08

    Excelente reflexão ! Podemos copiar ?

    9
    Mercredi 18 Février 2015 à 14:21

    Claro, pode copiar, divulgar etc.

    Lineimar

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