• A relatividade da moral

    A relatividade da moralA questão ocupa o pensamento dos filósofos, psicólogos e até de biologistas há muito tempo: você seria capaz de matar uma pessoa para salvar cinco? De acordo com Wikipédia, essa experiência do pensamento foi descrita pela primeira vez nos anos 1967 pela filósofa britânica Philippa Foot e analisada pelos filósofos americanos Judith J. Thomson, Peter Unger e Frances Kamm em um primeiro tempo, depois retrabalhada por muitos outros pesquisadores que propuseram variantes também inextricáveis que revelariam um impasse moral. 

    Para o sociólogo Francesco Alberoni, o estabelecimento de uma moral se inscreve em uma busca de transcendência de nossas pulsões primitivas para nos elevar "acima da natureza animal à traves de uma lenta evolução de nossos costumes, que opõe tabus, limites, freios à exteriorização dos instintos". O instinto primordial sendo o de sobrevivência para o qual seríamos capazes de matar um semelhante, e que o direito penal de várias sociedades contemporâneas reconhecem como uma exceção jurídica inscrita no direito natural, o da legítima defesa. 

    Contudo, os diferentes casos de figura propostos por esses pesquisadores não dizem respeito ao direito natural de sobrevivência reconhecido como legítima defesa, mas eles tentam descobrir quem teria a primazia de sobrevivência: o indivíduo ou o grupo?

    Esse dilema levantou reações diversas. Dentre seus mais virulentos críticos, os psicólogos Christopher Bauman e Peter McGraw afirmaram que ele seria estúpido, pois pouco realista e inaplicável aos problemas da vida real. Eles nem imaginavam que esta problemática se imporia como um dado bem tangível visando uma instauração concreta em tão pouco tempo. 

    A vertiginosamente rápida evolução da inteligência artificial permitiu a concepção de carros autônomos que impõe a necessidade, bem concreta, de se fazer uma escolha em uma situação até então puramente teórica, para dar uma resposta prática a esse questionamento filosófico. Acontece que os softwares integrados a esses carros deverão ser programados por um algoritmo (chamado de "algoritmo da morte" pela jornalista científica Anne Debroise) a fim de reagir a esses diversos casos de figura possíveis e prováveis.  

    Foi, assim, que Jean-François Bonnefon, doutor em psicologia cognitiva e diretor de pesquisa no CNRS, se lançou em uma experimentação colossal para recolher a opinião de motoristas de diferentes partes do mundo sobre essa questão, para programar os softwares que terão a difícil tarefa de atropelar um velho ao invés de uma criança, um homem ao invés de duas mulheres etc. Os resultados são ao mesmo tempo assustadores e reveladores. Fundado nas escolhas de quarenta milhões de pessoas oriundas de 233 países diferentes sobre casos de figura variados, esse estudo confirma que os valores morais variam de uma cultura para outra e são, consequentemente, reveladores de seus significados sociais: no Japão, a prioridade de sobrevida seria atribuída aos que respeitam as regras sociais; no Ocidente, procura-se salvar o maior número de pessoas; na França as mulheres e crianças teriam preeminência e na América Latina os ricos seriam mais preservados. 

    Enquanto a constituição de uma moral universal buscava retirar o homem de uma evolução que o colocaria no que ele tem de animal e seu instinto de sobrevivência, a evolução tecnológica apresenta um dado inédito na História da humanidade, que força o indivíduo, cidadão ordinário, a escolher quem ele deve sacrificar, não mais no contexto de uma impulsão natural de proteção da própria vida, mas no contexto de uma escolha pensada para proteger a vida de outra(s) pessoa(s) em detrimento da vida de terceiros. Uma escolha racional. Ela seria, assim, uma expressão de elementos subjetivos que constituem uma cultura determinada e reveladora do mundo que nos envolve. 

    Essa escolha de Sofia dos tempos modernos me parece impossível, eu detestaria estar no lugar daqueles que deverão tomar a decisão derradeira. Deixo, assim, a palavra final a Emmanuel Kant, grande pensador da moral, para quem seu fundamento deveria obedecer a um único imperativo categórico, resumido em sua fórmula geral que se tornou absurdamente atual: "Aja de modo que a máxima de sua vontade possa sempre valer ao mesmo tempo como princípio de uma legislação universal".

     

    Obs: Infelizmente não tive acesso à integralidade do artigo, esse post teve como ponto de partida uma entrevista dada por Jean-François Bonnefon a Yann Barthès, dia 8 de novembro, em seu program Quotidien. Deixo-lhes o link para o artigo publicado na revista Nature: The Moral Machine experiment

    Referências do livro citado: La morale, Francesco Alberoni, Plon, 1996.

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