• A complexa tradução de Stefan Zweig

    Traduções complexas: Stefan Zweig

    Acredito que, como eu, outros brasileiros sintam uma certa afeição pelo escritor austríaco Stefan Zweig, mesmo sem tê-lo lido, provavelmente por ele ter adotado o Brasil como país de exílio até sua morte em 1942. Em sua prolífica obra consta o livro Brésil, Terre d'avenir no qual descreve um Brasil cordial e pacifista, em total oposição à Europa em guerra que ele havia deixado. A título pessoal, foi esse livro que inspirou minha tese de doutorado.   

    De acordo com o jornal "Livres Hedbo", Stefan Zweig é um dos escritores estrangeiros mais lidos na França. Por essa razão, nesse ano de 2013 uma oportunidade excepcional surge para os editores franceses pois ele marca a introdução de Stefan Zweig no domínio público, ou seja, o conjunto de sua obra não será mais submetido a direitos patrimoniais.

    Em um artigo na revista francesa Le Nouvel Observateur da semana passada, a jornalista Anne Crignon falava sobre o fenômeno da retradução massiva de suas obras, fato que achei pertinente comentar aqui pelos questionamentos que suas particularidades levantam no exercício de nossa profissão. Segundo ela, os quinze tradutores germanófilos reconhecidos aqui na França têm-se empenhado em substituir o trabalho de seu predecessor, considerado ultrapassado, tornando-o mais atual. 

    Fiquei surpresa em descobrir que os textos de Zweig eram escritos "com uma certa negligência, em um estilo tão descontraido e tão disparatado que o tradutor enlouquecia (...) perguntando-se como uma editora pôde aceitar imprimir tantos absurdos gramaticais, lexicais e sintáxicos. Se Zweig fosse traduzido tal qual ele escrevia, não tenho certeza que teria tanto sucesso". Seus tradutores questionam-se, assim, sobre o que devem deixar, o que devem retirar, teriam eles o direito de "consertar" tais contradições ou repetições do texto de origem? Aparentemente, seu primeiro tradutor permitiu-se algumas modificações.

    O artigo vai muito além dessa questão, mas o que me interessou particularmente, nele, foi saber que as questões ligadas à subjetividade do nosso trabalho são compartilhadas pelo conjunto da profissão, e se resume, para mim, em uma questão central: até que ponto um tradutor pode modificar o texto fonte para torná-lo mais compreensível para o leitor que pertence a uma cultura diferente da do autor? Essa questão me assombra em cada trabalho que efetuo, pois é ela que determina, na minha opinião, a qualidade de uma tradução: o equilíbrio entre o respeito do estilo do autor e a interpretação, a recriação e a transposição desse mesmo estilo em um outro universo de valores.

    O que me tranquilizou, contudo, foi perceber que meu tormento é legítimo. Eu diria que a única resposta possível para essa pergunta é aceitar que cabe a cada um de nós, individualmente, encontrar esse equilíbrio, pois é ele que distingue e personaliza o trabalho de cada tradutor.   

     

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